(Foto: Marcello Casal - Agência Brasil)

A inflação oficial divulgada representa a nossa realidade?

Renato Wanderley Gomes

Quando se olha para o índice de inflação oficial do país, o IPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – pensa-se que aquele número tenha a pretensão de informar de maneira mais ou menos fiel a evolução dos preços da economia. Mas é isto mesmo que o IPCA faz? Vejamos.

Em Estatística, índices são construídos para monitorar as variações de certos objetos de estudo. Aplicando esta técnica ao estudo dos “objetos” da Economia, temos então a oportunidade de monitorar objetos que muito interessam à vida das pessoas: monitorar as variações dos preços. Mas quais preços?

Apenas por exercício mental, a fim de que ao cabo desta análise entendamos a deficiência do IPCA, e compreendamos o engano a que podemos ser levados em confiar cegamente no indicador; a rigor, poderíamos construir os seguintes índices para a nossa economia:

  1. Para as famílias que gostam e consomem mais chocolates (80%) do que frutas (20%), poderíamos construir um índice de inflação das famílias chocólatras;
  2. Para as famílias que gostam e consomem mais frutas (80%) do que chocolates (20%), poderíamos construir um índice de inflação das famílias saudáveis;

Se os preços de chocolate subirem 100% e os preços das frutas subirem 50% de um período para o próximo, então o “Índice 1” terá uma inflação diferente do “Índice 2” porque estes índices construídos dão importâncias diferentes para os diferentes grupos de objetos de estudo.

O “Índice 1” seria praticamente irrelevante para as “Famílias 2” e o “Índice 2” seria praticamente irrelevante para as “Famílias 1”. É rigorosamente impossível construir um Índice único que satisfaça aos padrões de comportamento de consumo de ambas as famílias, de modo igualmente importante para ambas. É uma tarefa tecnicamente impossível.

Já deu pra perceber que precisamos, portanto, de algo que é inevitável para construirmos um Índice, não deu? Precisamos de “arbitrariedade”.

E qual é a arbitrariedade embutida no IPCA? Esta é a pergunta mais importante que as pessoas poderiam passar a se fazer quando recebem, por qualquer canal de comunicação, a atualização mensal deste indicador (IPCA).

No site do IBGE fica bastante claro (melhor será investigar a nota metodológica para os mais interessados) qual a arbitrariedade do IPCA: tem por objetivo medir a inflação de um conjunto de produtos e serviços comercializados no varejo, referentes ao consumo pessoal das famílias.

Agora, façamos a seguinte pergunta, por exemplo: a aquisição de casas pra morar é comercializada no varejo? É consumo pessoal? Não, não é!

Existe monitoramento para este grupo de interesse “preços de casas pra morar”? Existe algo próximo na metodologia, que é o “grupo habitação”, mas ele só tem 15% de relevância. Seria esta a relevância que damos para comprar um imóvel ao longo da vida? 15%?

Se viéssemos a fazer uma enquete nas ruas, alguém duvida que as pessoas considerariam uma importância altíssima? No entanto, este objeto de estudo “preço das casas”, por incrível que possa parecer, não é rigorosamente parte do indicador IPCA. Nem seus objetos relacionados possuem importância significativa.

Agora vamos aos resultados práticos.

Segundo estudo de 2019 do IBGE obtido pela FIEP (no site da instituição), Federação das Industrias do Estado do Paraná, que abrangeu vasto período, desde a criação do Plano Real em 1994 (25 anos de abrangência), a inflação medida pelo IPCA foi de 508% (+6X de variação), enquanto que a inflação medida para o grupo de habitação subiu 1.020% (+11x de variação).

Desta forma um imóvel que custasse, digamos, R$ 200 mil no início do Plano Real, ao fim de 2019 já custava efetivamente R$ 2,2 milhões, no entanto medido pelo IPCA nós seríamos enganosamente levados a crer que estivesse custando R$ 1,2 milhão. Uma diferença da ordem de 500%. Uma diferença que, na vida prática das pessoas, vai tornando muito distante o sonho da casa própria, se a pessoa passasse a confiar cegamente neste indicador IPCA pra basear decisões de aquisições de imóveis ao longo da vida.

Quem contou com reajuste salarial pra comprar a casa própria, a cada 5 anos viu essa casa se tornar 100% mais cara. Quem investiu ganhou uma casa nova a cada 5 anos, já descontada a inflação do IPCA.

Nota-se assim o engano que é contar com o IPCA para um objeto de estudo tão importante em nossas vidas, como a casa que moramos, a casa que desejamos morar, a casa que queremos comprar ao longo de toda uma vida.

Ainda, contar com correções monetárias salariais que envolvam o IPCA ou seus similares (ex. INPC), também faz com que sejamos levados a perder poder de compra para comprar um bem de suma importância em nossas vidas. Efetivamente ficamos mais pobres por este aspecto de análise prática da vida.

Sabe-se na comunidade de estudiosos de economia que este foi um efeito generalizado para grupos de bens duráveis em contraposição ao grupo de bens não-duráveis. Isto quer dizer que ao longo dos últimos 25 anos os bens que exigem um requerimento financeiro maior para se adquirir tiveram uma inflação muito distante – muito maior – daquela divulgada pelo índice oficial IPCA.

Você ainda vai continuar confiando no IPCA depois dessa?

 

(Renato Wanderley Gomes é economista e sócio do escritório de contabilidade e gestão empresarial “WGSA” em Campo Grande-MS,
Instagram: @renato_wgomes,
E-Mail: renato.gomes@wgsa.com.br
Site: www.wgsa.com.br.

 

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