A gente, as vezes, brinca mas o brasileiro, realmente, é uma raça a ser estudada pela Nasa. Ao mesmo tempo em que demonstra solidariedade em relação à uma necessidade, nos adaptamos a um certa realidade e batemos no peito dizendo “Sou brasileiro, não desisto nunca!”, tambem mostramos um lado perverso, desprezível e lamentável.

O exemplo pode ser visto no cadastramento do Auxilio Emergencial para recebimento dos R$ 600,00 que estão sendo pagos pelo Governo. Tem muita gente reclamando dos atrasos no pagamento, da falta de controle, da demora nas análises e na dispensa de gente que realmente precisa receber o auxílio. Mas há alguns fatores que contribuíram pra isso e, boa parte deles, por causa desse brasileiro que eu falo, que precisa ser estudado.

Vamos aos números que tem como fonte a própria Caixa: cerca de 97 milhões de CPF’s tinham sido cadastrados até o último dia 06/05/2020 e analisados pela instituição. Pouco mais de 50 milhões foram considerados aptos a receberem o auxílio. O restante não tem direito por não estarem aptos ou por apresentarem cadastro inconclusivo. E para analisar todo esse volume de pedidos, muito além do que a Caixa imaginava receber, deu trabalho, levou tempo e consumiu mais do que a estrutura da instituição podia cumprir. Tivemos aí um erro de cálculo grave que provocou os atrasos e podemos atribuir parte da culpa ao Governo, que não se preparou melhor para efetuar o pagamento prometido.

Mas por outro lado, esses milhões de brasileiros “espertos” foram responsáveis também pela maioria das complicações. Por que? Porque foi amplamente informado que quem trabalha de carteira assinada não teria direito ao auxílio, mas eles foram lá e fizeram cadastro; avisaram que quem recebe pensão ou aposentadoria, também não teria direito, mas estes foram lá e também fizeram cadastro; menores de idade que não teriam direito fizeram cadastro; pessoas que já recebem auxílio desemprego, mesma coisa; a mulher de licença maternidade e, portanto, de carteira assinada, foi lá e fez o cadastro, assim como outros que nunca tiveram direito: a mulher casada dizendo ser mãe solteira pra ganhar R$ 1.200,00; os cerca de 80 mil presidiários que estão fora dos critérios e outros milhões de trabalhadores, com carteira assinada e empregados, que tentaram o “vai que cola, né?” para receber um dinheirinho a que não tem direito em qualquer hipótese.

Esses “malandros” formam uma horda de gente sem a mínima preocupação com quem realmente precisa do dinheiro e querem apenas tirar proveito da situação. Então, imaginem o trabalho que dá analisar esse tipo de cadastro pra só depois descobrir que são apenas de oportunistas e o quanto isso atrapalha a vida de quem realmente está passando fome e precisa urgente do dinheiro.

A culpa do atraso pode ser sim da inoperância da Caixa em lidar com uma situação nova e o imenso volume de necessitados, mas muito mais de quem não tinha o que fazer e tentou dar um golpe no governo usando de má fé.

O mal do brasileiro é ter aprendido a ser corrupto, como nossos políticos, e achar normal tirar vantagem da desgraça alheia e em cima de “um governo que nos rouba tanto” – aliás, essa não é sempre a desculpa, mesmo que nao ocorra mais?

Mas a culpa é também das Assembléias Legislativas que deram “cheques em branco” a estados que decretaram Estado de Calamidade Pública e agora podem efetuar gastos sem a necessidade de licitações. Aí vemos um governo, como o de São Paulo, tentar torrar 14 milhões de reais na compra de aventais de uma empresa que sequer conseguiria entrega 100 peças (veja aqui a matéria), dando indícios de que o dinheiro público vai pra qualquer lugar, menos pra onde realmente deveria ir.

Acho melhor a Nasa vir logo, pois há muito o que se estudar sobre a “humanidade brasileira”.