Estamos vivendo um momento único em nossas vidas e, para muita gente, talvez seja o primeiro e último, como pra mim por exemplo. Fomos obrigados a adotar comportamentos que antes achávamos exagerados. Para os que ainda são obrigados a sair de casa, tirar a roupa antes de entrar de volta, tomar banho antes de qualquer contato com a família, lavar as mãos depois de tocar objetos, higienizar com álcool a compra do supermercado e calçados que ficam do lado de fora, eram atitudes incomuns e tratadas como paranoicas. Hoje são medidas de segurança. Acabaram-se os beijos e abraços e os carinhos trocados entre os que se amam. Ninguém se cumprimenta mais com apertos de mão e a comunicação virtual nunca foi tão usada.

Por outro lado, o céu está mais limpo e azul na maioria das cidades. As chaminés e escapamentos deixaram de vomitar fumaça por ociosidade. Rios e córregos que há bem pouco tempo carregavam esgoto e lixo, estão mais limpos – afinal não há tanta gente mais nas ruas para jogar seus detritos neles. Os índices de assalto, invasões de comércios, acidentes de trânsito e homicídios diminuíram consideravelmente nas grandes cidades por causa dos toques de recolher e do medo de ficar nas ruas. E também acabaram as brigas em estádios e confusões em bailes funk.

O mundo inteiro está mais quieto, mais reflexivo, mais introspectivo. Estamos com tempo para analisar nosso comportamento nesses anos todos de existência e tirar desse momento de reflexão um ensinamento para a vida que nos resta. Mas será que esse sentimento irá permanecer? Tenho minhas dúvidas.

O ser humano só muda quando é forçado a isso. Podemos comprovar pelo número de pessoas que ainda insistem em sair de casa sem necessidade, em ficar nas praças e parques em pequenos grupos a conversar para “quebrar o tédio do isolamento”. Ainda vemos idosos – as principais vítimas – empurrando carrinhos de compras em supermercados com aquele ar de “sou autossuficiente, não preciso de ninguém” que é peculiar dos que se sentem, muitas vezes, abandonados pelas suas famílias. Ainda vemos filas na frente dos bancos que limitaram o numero de clientes do lado de dentro – mas do lado de fora ninguém tá nem aí. E pior que tudo isso, ainda constatamos que há empresas que aumentaram o preço de produtos essências nesse momento, como álcool e gás de cozinha, de forma oportunista.

Estamos com tempo para analisar nosso comportamento nesses anos todos de existência e tirar desse momento de reflexão um ensinamento para a vida que nos resta. Mas será que esse sentimento irá permanecer?

Há também os que aproveitaram para demitir funcionários amparados por decisões governamentais, não por queda do seu movimento. E os que suspenderam o pagamento de contas, não por falta de dinheiro, mas atribuindo culpa à “crise que assola o país”. É claro que boa parte da pessoas está mesmo apreensiva e outras, diretamente prejudicadas com tudo, mas é real que a malandragem acabe se escondendo no meio do desespero verdadeiro.

E quando tudo isso terminar? Será que o céu ainda continuará tão limpo? Será que as pessoas manterão seus carros na garagem para poluir menos? É possível que deixem de jogar lixo nas ruas ou nos córregos mantendo suas águas mais limpas? Será que os índices criminais serão mantidos baixos e as confusões em aglomerações acabarão?  Bom, nesse momento conseguimos dar uma bela demonstração de que podemos até mais do que isso, mas é bom lembrar que estamos sob medidas emergenciais e não por vontade própria.

Tenho lido em textos espirituais que tudo isso não passa de uma limpeza da humanidade, para que possamos consertar aquilo que sempre fizemos de errado, a nós mesmos, à natureza, ao nosso planeta. E a punição é severa. Mas e depois? A humanidade já deu mostras de que, ao mesmo tempo em que pode ser solidária, tem mais vontade de ser perversa e sou um pouco descrente de que isso vai se reverter daqui pra frente. Afinal levamos séculos para nos tornar egoístas e individualistas e não serão 15 dias de quarentena que fará isso mudar. Mas já é uma tentativa!