Certo dia, sentado no café de um shopping em São Paulo, vejo uma cena que me toca e me faz crer ainda mais que nossas vidas começam e terminam da mesma maneira. Pelo menos, para aqueles que conseguem ter um longa jornada e não vão embora cedo por alguma fatalidade. De onde estava sentado observava o vai e vem de pessoas e vi à minha frente duas situações que, coincidentemente, aconteciam no mesmo momento. Vindo de um lado, uma mãe empurra um carrinho de bebê com um recém-nascido. Na mesma velocidade, quase que andando paralelamente, mas do outro lado do corredor, uma jovem cuidadora empurra a cadeira de rodas de um idoso, bem velhinho, na casa dos seus mais de noventa anos.

Aquela cena me fez refletir sobre uma piadinha de mau gosto que sempre ouvi. Ela diz que nós morremos tal qual nascemos – carecas, cagões, babando, usando fraldas e apenas balbuciando sons. Nunca achei graça da piada porque a acho preconceituosa, um total desrespeito para com os idosos. E aquela cena me fez perceber isso ainda mais claramente. Na verdade, enxerguei ali, naqueles dois seres humanos sendo empurrados em suas cadeiras, uma semelhança que tem mais sentimento de compaixão do que a graça de uma piada. Há apenas uma diferença: a indiferença!

Explico: os bebês nascem e precisam de cuidados essenciais nos seus primeiros anos de vida. Como não falam, seus choros e esperneios precisam ser interpretados, traduzidos, compreendidos e respondidos de imediato. Os bebês precisam ser alimentados por terceiros, recebem banho, carinho, atenção, conforto, cuidados com sua saúde e segurança. Quando se envelhece, esses mesmos gestos que deveriam também ser essenciais aos idosos, são simplesmente desprezados. Muitas vezes não se consegue envelhecer com saúde e boa parte dos idosos precisam de atenção, banho, alimentação por terceiros, fraldas, cuidados, atenção, carinho e conforto. Mas na maioria dos casos, não é isso que vemos. O que vemos é descaso, desrespeito, descuido, desatenção, principalmente das famílias que os abandonam em asilos como móveis velhos guardados em um depósito. Tudo fruto da tal indiferença que falei acima. E, assim como a piadinha de mau gosto, a situação não tem graça nenhuma.

O Brasil, por causa da melhora na qualidade de vida das pessoas, está se tornando um país de idosos. As pessoas estão vivendo mais. E me preocupa saber que essa população é a que menos recebe atenção de todos – do governo aos familiares. Quantos idosos já vimos serem jogados num asilo sem a mínima estrutura por parentes que queriam se livrar de um ” problema”? Poder estacionar em vaga especial, andar de ônibus sem pagar, poder cortar a fila e ter prioridade em caixas de banco e supermercados, são apenas obrigatoriedades que são estendidas aos mais velhos. Os “direitos” que os idosos tem são pífios perto do que realmente seria importante pra eles, mas o que realmente importa, eles não tem. Cadê o atendimento de saúde com qualidade? Cadê a aposentadoria digna pelo tempo que essas pessoas trabalharam? Cadê a gentileza, a ajuda, a solidariedade e a educação com quem tem mais de sabedoria do temos de vida? Plano de saúde, seguro de vida e de automóveis custam muito mais caro pra quem, muitas vezes, não tem condições de pagar. Sem contar nos remédios, no custo com enfermeiras e cuidadores, no que lhes custa a vida!

Se somos tão iguais ao nascermos e morrermos, porque ao invés de todo o carinho e atenção que recebemos quando bebês, na velhice acabamos recebendo o desprezo, mesmo depois de cumprir uma missão tão difícil e complexa que é completar a vida? Deveríamos, na verdade, pensar quantas vezes agradecemos por termos sido tão bem tratados quando bebês para que nos tornássemos o que nos tornamos quando adultos e se estamos retribuindo aos nossos idosos na mesma proporção.

Devemos lembrar, principalmente, que já fomos crianças, mas também que seremos velhos um dia.