Certa vez estava Deus, entediado, sentado em sua poltrona no alto do Universo quando resolveu criar o céu e a terra. Levou seis dias com o magnífico trabalho de construir paisagens belíssimas, matas verdejantes, animais dos mais variados, pássaros, cachoeiras, nuvens, montanhas… tudo perfeitamente encaixado num cenário de dar gosto. Foi o maior arquiteto e paisagista que se tem notícia. No sétimo dia, obra finalizada, descansou.

Olhava para tudo aquilo, praticamente completo, mas sentia que faltava algo e decidiu criar o homem e a mulher – alguém para tomar conta daquela vastidão e povoar aquela obra tão magnífica. Afinal de que ela serviria se não pudesse ser contemplada por mais alguém? E foi aí que Deus, sem imaginar no que ia dar, começou a se decepcionar com sua última criação – o homem, que jamais foi à sua imagem e criação!

No início já surgiram traições que fez Deus pensar “Oras, mas não coloquei essas atitudes aí!”. Eva se meteu a comer a maçã da árvore proibida, ludibriada por uma serpente, e ainda por cima a ofereceu a Adão. A partir daí, adquiriram conhecimento e noções de vergonha mas, o que se viu a partir daí, percebe-se que não conseguiram usar nem uma coisa nem a outra para criar uma humanidade menos caótica.

Os anos e séculos passam, irmão mata irmão, povos guerreiam contra povos por pura ganância e um beijo na face, o de Judas, revela a origem da traição. O homem que surgiria para apaziguar a humanidade, enviado pelo seu próprio pai, o Criador, é visto como ameaça e a partir de seus milagres, desacreditados por muitos, surgiram religiões que começaram a disputar a hegemonia da fé. Mortes, mais traição, luxúria, ganância, poder… sentimentos que Deus jamais tinha imaginado colocar no projeto e que o fizeram pensar: “Mas onde, raios, foi que eu errei na hora de preparar aquele barro?”.

Os tempos passavam e o ser humano não evoluía, ao contrário exibia cada vez mais a sua face egocêntrica. Reis, rainhas e imperadores escravizavam os que consideravam inferiores e marchavam com seus exércitos sedentos por sangue para aumentar seus domínios, para ter cada vez mais terras e poder. A qualquer custo! E Deus continuou ali, tentando melhorar as coisas promovendo a justiça divina com algumas epidemias, pragas e catástrofes que promovessem uma certa “limpa” entre os homens.

A humanidade foi crescendo desnorteada, sem amor ao próximo, baseada na disputa. Quem era maior e mais forte, subjugava os mais fracos. Demorou para se acabar com a escravidão que, na verdade, adquiriu outras formas nem tão menos agressivas assim. Ou será que alguém não chamaria disso o trabalho de ficar 40 horas em uma sala de aula, tentando ensinar delinquentes em troca de um mísero salário ou então passar a madrugada carregando o lixo dos outros para receber algo que mal paga o leite das crianças? E, além disso, ainda desrespeitamos todos os mandamentos criados por Ele, cuja missão de nos comunicá-los ficou a cargo de Moisés. Ele até que tentou mas, nós, seres humanos, os desprezamos como quem bloqueia alguém no Facebook. E leis como “Não matarás, não roubarás, honrar pai e mãe, não levantar falso testemunho” e outras seis regras divinas, servem hoje apenas para contar histórias bíblicas.

Deus deve estar envergonhado da sua criação. Nós o envergonhamos e nem sequer admitimos isso. Perdemos a humanidade em atos mais simples do que fazer uma oração diária, ao valorizar a inveja, a soberba, o egoísmo, ao desprezar a ajuda ao próximo, ao desejar “ter” do que “ser”. E quando escolhemos o “ser”, valorizamos ser ricos, poderosos e belos. Queremos ser, muitas vezes, o que não podemos, quem não podemos e o que não devemos ser. E a cada dia, Deus vai se lamentando por acreditar que a culpa é Dele. Não, não é. Passamos a vida sendo ensinados a saber qual é nosso real papel nessa sociedade em que vivemos, mas não aprendemos nada.

Deixar um carrinho de supermercado na vaga de deficientes, furar a fila no trânsito, jogar lixo pela janela do carro, passar a perna em alguém, querer tirar vantagens de uma situação delicada, ficar com um troco a maior, não abrir o vidro pra alguém que quer apenas te entregar um folheto no semáforo, matar, roubar, trair ou simplesmente desprezar quem te pede um prato de comida, são apenas singelos sinais de que estamos há uma eternidade achando que somos a raça dominante das galáxias, mas não passamos de um grão de poeira cósmica no cocô dos ETs desse universo infinito.

E, Deus, na real… não foi culpa sua. Tenho certeza de que se você soubesse no que iríamos nos transformar, você teria optado pela cobra do Paraíso, aquela que fez Adão e Eva comer a maçã.