Queria entender porque algumas pessoas estão se afastando tanto da figura do ser-humano que deveriam ser. Falo isso depois de ler uma notícia, publicada há tempos. A manchete era a seguinte: “Justiça de SP condena cafeteria por demitir funcionária que bebeu água durante expediente”. Juro que não sabia que saciar uma necessidade fisiológica no trabalho era considerado um crime tão grave que justificasse uma demissão. Claro, considerado assim por gente que não deveria nem ser chamada de gente e esta longe da categoria dos seres-humanos. A empresa, uma franquia de café muito conhecida, foi multada e obrigada a indenizar a funcionária, demitida por justa causa, em R$ 11.300,00. Além dos direitos trabalhistas pelos três anos de serviços prestados à empresa pela funcionária.

A que ponto chegamos! Não é de hoje que tenho ouvido e presenciado essa falta de humanidade nas pessoas. É claro que não se pode generalizar, mas casos semelhantes têm acontecido com cada vez mais frequência. Vou dar outro exemplo, desta vez de dentro da minha casa. Recentemente contratamos uma secretária doméstica nova e nos primeiros dias percebemos que ela se incomodava com certa situação: diariamente, mesmo eu e minha mulher não estando em casa na hora do almoço, pedíamos para que fosse entregue uma refeição (marmita) para nossa colaboradora. Ficamos sabendo depois do motivo da sua surpresa: a antiga patroa jamais lhe ofereceu comida durante o trabalho e ainda disse que ela mesma teria que levar de casa se quisesse comer. Nem tocar em algo na despensa ou geladeira a secretária podia sob o risco de demissão. Achei isso um total absurdo, uma falta de consideração para com aquela que lhes servia. Para mim, uma atitude incompreensível já que fui criado com valores morais que nos colocavam, a mim e a meus irmãos, no mesmo patamar do respeito dado aos dos funcionários da casa e do pequeno comércio que meu pai tinha. Inclusive, eles sentarem à mesa para fazer suas refeições conosco era rotineiro, quase que obrigatório.

Mas muito distante desse tempo, hoje vejo certas “castas” se distanciarem cada vez mais daqueles que consideram inferiores, seja por lhes servirem, por ter um padrão de vida mais baixo ou por ocuparem posições menos privilegiadas no trabalho e na sociedade. Até mesmo nas escolas, muitas crianças, espelhadas na arrogância de seus pais, enfrentam e desrespeitam professores e monitores, achando que são superiores a eles. Minha filha de sete anos, um dia me perguntou se eu pagava o salário dos professores, porque ouviu um coleguinha dizer isso para um deles depois de ter sido chamado à atenção: “Meu pai é que paga o seu salário!”, disse ele num tom agressivo. Esse pré-conceito, com certeza, veio de casa através de valores podres que muitas famílias prepotentes repassam a seus filhos.

Tenho saudades do tempo em que eu levava um puxão de orelhas e meus pais iam à escola pedir desculpas aos professores pelo meu mal desempenho e comortamento. Hoje, eles vão aos colégios, arrogantemente, cobrar dos mestres pelo mal desempenho de seus filhos, alegando que “pagam caro” para que eles saiam dali melhores, sem lembrar que as crianças deveriam sair melhores é de casa! Uma inversão de valores que me indigna.

Ver uma pessoa fechar o vidro do carro quando um pedinte se aproxima também é outro ato corriqueiro. Ainda estamos longe de viver numa cidade onde as pessoas estão sujeitas a assaltos e violência no trânsito, enquanto estão paradas no semáforo. Então, a atitude só revela isso que estou afirmando aqui: muitos estão perdendo a sua humanidade até mesmo sem perceber.

O que devemos é praticá-la constantemente, estender a mão, abrir o vidro num gesto gentil para receber um panfleto que nem nos interessa, entregar aquela sobra de comida do restaurante a quem passa fome nas ruas, enfim, doar um pouco da nossa solidariedade e compreensão a quem não espera recebê-las.

A garrafa de água tomada pela funcionária no caso que citei custou à empresa mais de 11 mil reais. Alto, mas um valor que não chega perto da sensação de se fazer o bem a quem merece.