Como viciado em seriados que sou, daqueles de fazer maratonas de episódios no sábado e domingo, esta semana encerrei mais um. Esse foi curtinho e, pelo tema, deixou um gostinho de quero mais. Foi o seriado “O Mecanismo” que mostra de forma ficcional baseado em fatos bem reais, como começou a Operação Lava-Jato. É claro que muitas coisas já foram reveladas pelas reportagens veiculadas desde o início das prisões em 2014, mas é interessante ver como funcionava o ciclo maléfico (e acredito que ainda funcione) que destruiu uma das mais sólidas empresas do país, a Petrobrás.

O que mais me incomodou na série e, pelo que li e pude acompanhar na vida real, foi a prepotência, a empáfia, a arrogância dos políticos e empresários envolvidos no início da história que já sabemos onde deu até agora. Mas era uma postura permitida pelas próprias ligações com o alto escalão do governo de então (o que acontece ainda hoje) que estava metido até o pescoço em toda a sujeira perpetrada pelas empreiteiras, executivos do setor público e políticos.

Meio ficcional e bastante história real, O Mecanismo encerra mostrando que aquele ciclo maléfico funcionava, e funciona até hoje, nos escalões mais baixos da sociedade. O que revela isso é a parte em que o ator Selton Mello, que faz o papel do delegado da Polícia Federal que deu início às investigações que originou a Lava-Jato, mostra a mesma linha de corrupção que acontecia num simples vazamento de esgoto em frente à sua casa. O funcionário da empresa de saneamento que vai até lá verificar o problema lhe passa o telefone do seu João que pode resolver a questão mais rapidamente. Para isso lhe cobra 600 reais por um serviço que seria feito de graça pela empresa de saneamento. Só que com o Seo João ficam apenas 150 reais. O resto vai para o funcionário da empresa que o indicou e para o diretor do departamento de águas da cidade que permite que esse esquema funcione livremente.

E é assim que vemos que a culpa está em nós mesmos que, muitas vezes, para resolver problemas de maneira rápida e sem burocracia pagamos aos “Seos Joãos da Vida” sem ter a ideia de que esse ato fomenta o tal ciclo vicioso da corrupção no Brasil. Pagamos pra alguém burlar a burocracia pra trocar um cano de rua, pagamos pra alguém do Detran anular uma multa, pagamos um funcionário da justiça pra acelerar um processo e até pra alguém da prefeitura tapar aquele buraco na frente da nossa casa. E assim fica impossível acabar com a corrupção. O máximo que se consegue é combatê-la ao expor os esquemas.

Por essas e por outras é que acredito que a Lava-Jato apenas expos uma parte da espinha dorsal desse câncer – o buraco é muito mais profundo e sujo do que se imagina. E para que isso venha à tona, espera-se a abertura dos caixas do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES e outras empresas estatais que a vida toda serviram de cofre das falcatruas perpetuadas no país em prol de projetos de poder dos nossos governantes. E não é de hoje.

Por isso quando damos “um cafezinho” a um simples funcionário público pra “ajeitar” alguma coisa que parece inofensiva, devemos lembrar que não somos diferentes do empreiteiro que paga milhões a um diretor de estatal ou a um político como propina de seus contratos fechados com o governo. A diferença é apenas no valor pois estamos movimentando o mesmo tipo de mecanismo que tem acabado com esse país. E a conta está cada vez mais salgada para nós mesmos. Ou você acha que não somos nós, cidadãos, que pagamos a conta?

Pense nisso na hora de oferecer esse “cafezinho” a alguém.