É nos momentos de crise que vemos realmente quem é o Brasileiro. Até a entrega deste artigo a paralisação dos caminhoneiros ainda afetava o abastecimento de produtos em todo o país. Em Campo Grande já começava a faltar combustíveis em alguns postos. Acredito ser esse o maior impacto na vida das pessoas porque afeta diretamente todos os setores que dependem da locomoção e do transporte.

E é aí que alguns empresários mostram a sua verdadeira cara, demonstrando o tamanho da sua ignorância, da sua falta de escrúpulos, da sua desonestidade e da desumanidade. Em Recife, na última quarta-feira, um posto de combustível estava vendendo o litro da gasolina a R$ 8,99, mais que o dobro do valor normalmente verificado na cidade. Uma afronta à dignidade de quem precisa do combustível para se locomover e revela o tipo de gente que explora as dificuldades humanas. Em Campo Grande, na quinta-feira, mesmo após três dias consecutivos de baixa do preço da gasolina pelo Governo, havia posto que aumentou de R$ 3,95 para R$ 4,29 e até R$ 4,41 o litro do combustível (em postos na Calógeras e na Rua Bahia), numa total falta de caráter, consciência, vergonha na cara e humanidade.

O que dizer de comerciantes desse tipo que tripudiam em cima de uma situação que vai afetar a si próprios daqui mais há alguns dias, quando seus estabelecimentos também ficarem sem produto pra vender? O que dizer de um canalhas como esses que pisam na cabeça daqueles que estão se afogando? Por essa e por outras é que nosso país está afundando cada vez mais – ora por conta de um governo inepto que apenas sacrifica o seu povo, ora pelas mãos de empresários que usam a ganância e o oportunismo como formas de sobrevivência.

Mas não é de hoje que os oportunistas desalmados agem para tornar a sociedade cada vez mais estraçalhada pela falta de valores e pela malandragem que nos é peculiar. E não são só empresários: o ser humano, em geral, ao mesmo tempo em que às vezes se mostra solidário, também tem esse dom de tirar proveito da penúria e dos momentos difíceis.

Em 2008 acompanhei de perto a tragédia da enchente em Santa Catarina. Mais de 20 mil famílias ficaram desabrigadas pela inundação do rio que afetou várias cidades na região de Itajaí. No Morro do Baú, em Ilhota, cidade próxima a Blumenau, houve deslizamentos de terra que soterraram uma pequena comunidade rural, matando mais de 200 pessoas. Sítios inteiros ficaram embaixo de 5 metros de lama e escombros, num cenário que eu nunca imaginei ver na vida. Foi uma cobertura que me emocionou.

Em meio a essa tragédia, pude registrar a mesma atitude mesquinha do empresário de Recife que relatei no início do artigo. Como forma de explorar o sofrimento daquela gente, comerciantes vendiam botijões de gás por três vezes o valor normal. Os galões de água de 20 litros, extremamente necessários pela falta de abastecimento causada pelo rompimento de tubulações, eram comercializados a quase 100 reais. Também havia moradores de áreas não afetadas pela enchente vendendo água de torneira a 15 reais o litro.

Não bastasse isso, doações que chegavam aos montes de todo o país e que lotaram um ginásio de esportes em Blumenau, eram desviadas e saqueadas. Mas não por famílias necessitadas, que tiveram as casas interditadas ou levadas pela enxurrada e sim por “voluntários” que separavam para eles o que de melhor chegava e entregava aos flagelados apenas aquilo que não lhes servia como roupas, calçados e cobertores quase sem condições de uso. Houve até uma comerciante que foi descoberta e denunciada por vender roupas doadas, roubadas do ginásio, em sua loja no comércio da cidade. Agora vemos a situação se repetir da mesma maneira abominável.

É por atitudes assim que vemos que os brasileiros não são tão unidos como parece. Infelizmente somos um povo em que cada um tenta livrar o próprio rabo, não se importando com o que está próximo. Por causa da paralisação dos transportadores vários produtos como alimentos foram jogados fora porque estragaram. Jogados fora! Porque não foram doados, entregues à famílias em situação de miséria que existem aos montes na beira das estradas? Milhares de litros de leite que estavam azedando e poderiam alimentar milhares de famílias foram despejados nos acostamentos.

Nós sofremos e muitos tiveram prejuízos com a paralização dos caminhoneiros, mas devemos considerar que eles são, na verdade, os únicos que tiveram a coragem de fazer algo contra esse desmando do governo. Enquanto nós, cidadãos comuns, ficamos correndo de posto em posto, enfrentando fila, tentando encher o tanque pra rodar no fim de semana, pagando qualquer preço pelo combustível.

Não quero ser fatalista, mas às vezes penso que só extinguindo a humanidade e gerando uma nova é que teremos a possibilidade de melhorar enquanto seres humanos. E não adianta trocar políticos e colocar gente nova no poder se nós mesmos não mudarmos. E isso, infelizmente, não se resolve numa eleição. Que pena!