Por Bruna Pannunzio

“Meu marido trabalhava na Ong CFDH e começou a denunciar os erros cometidos pela polícia. A Polícia matou muitas pessoas inocentes também.”

Um dia você acorda, segue a rotina, até que a tranquilidade do seu lar é abalada. Quem dera se  fosse só um pesadelo, no qual acorda e sente o alívio daquela angústia não ser real,  não fazer parte da sua vida.

Refugiado não é um tema fácil de ser abordado e compreendido.  Vou tentar da melhor maneira possível contar a história de Mamie, vinda da República Democrática do Congo.

Em abril de 2016, foram estimados pela ACNUR (Agência da ONU para refugiados) 8.863 refugiados aqui no Brasil. Infelizmente, Mamie Bozonga, faz parte dessa estatística. Ela teve que abandonar sua casa, amigos, familiares, tudo o que tinha, sem olhar para trás.

Conversamos pelo Messenger, do facebook. A primeira frase dela foi explicar de onde veio.

Cheguei no Brasil agora, faz dois anos. Tem dois Congos, o meu é a República Democrática do Congo. É maior, muito rico, mas o povo é pobre, pois o governo e política são ruins.

Papy Mbuku e Mamie Bazonga tiveram que fugir de seu país após uma denúncia feita pela ONG, em que Papy trabalhava, contra a violência policial  aplicada nos jovens.

Bruna: Seu marido trabalhava na Ong fazendo o que? Era jornalista?

Mamie: Meu marido trabalhava numa Ong de Direitos Humanos. Seu trabalho era fazer as pessoas se sensibilizarem e informar os direitos aos cidadãos e também denunciava os malfeitos que aconteciam lá e defendendo quem não conseguia falar. Uma situação passava no meu país, na capital.

Bruna: O que estava acontecendo com vocês, se passando lá?

Mamie: Lá  usavam reeducação para os  jovens, um programa para acabar com a violência. Meu marido trabalhava na Ong CFDH e começou a denunciar os erros cometidos pela polícia. A Polícia matou muitas pessoas inocentes também.

Bruna: Mamie, mas me explica um pouco mais, pra eu entender melhor o que estava acontecendo lá.

Mamie: Foi muito ruim. Essa situação toda durou uma semana. A Ong trabalhava muito duro  para denunciar esses erros policiais, problemas no governo, polícia. Meu marido virou um dos alvos deles. Depois a Ong tava com problema com o governo e polícia. Meu marido foi muito marcado, perseguido, pois era muito ativista. Não perseguiram só ele, mas a mim e a minha filha Priscilla também (3 anos, na época).

Bruna: Como vocês fizeram pra conseguir fugir? Sair do Congo?

Mamie: A Ong nos ajudou a sair do país, a conseguir os documentos. Não escolhemos vir pro Brasil, pra onde ir. As portas estavam abertas pra dar visto aqui no Brasil.

Mamie veio pro Brasil com sua filha Priscilla, dez dias antes do seu marido, pois conseguiu primeiro os documentos.  Eles moravam fora da capital, em uma cidadezinha pequena. Continuou me contando a sua história e como fizeram e a dificuldade que passaram para conseguir.

Mamie: Morávamos no campo, foi difícil. Tivemos que ir pra Capital.

Bruna: Quais perigos vocês passaram? O que fizeram contra vocês?

Mamie: Perigo e Direitos Humanos no meu país são sempre perigosos.  O povo perde a vida, são ameaçados.

Bruna: Quais ameaças vocês sofreram?

Mamie: Um dia foram atrás da gente, na nossa casa.  Meu marido estava fora, eu na minha sogra. Quebraram janela e porta, mas a casa estava vazia.  Por sorte, muitas vezes que a polícia veio atrás da gente meu marido não estava. É complicado, usam qualquer um pra acabar com quem querem.

Bruna: Porquê ele foi um alvo?

Mamie: Meu marido era um alvo por ser ativista.  É complicado quando você se torna alvo do governo. Eles podem usar qualquer caminho pra fazer maldade contra você.

Papy fazia denúncias por meio da Ong, captando imagens em vídeo, e mandava para a ONU como denúncia.  Primeiro viu sua esposa e filha indo embora, mais tarde foi ele a se despedir às pressas do seu país e de tudo que vivera até então.

Mamie, assim como seu marido, buscam oportunidades e tem que lidar com as dificuldades (que vão além das emocionais) para conseguir se manter num país onde tudo é tão diferente.

Foi muito difícil, onde você vai que não conhece a língua é diferente”.

Através de uma campanha, chamada “Estou Refugiado”, feita pela agência Plano Digital ela e outros refugiados tem recebido apoio, mas não o suficiente para sanar as necessidades.

Mamie tem uma bebê que está perto de completar um ano (Estrella) , a filha Priscilla de cinco anos, o marido, uma casa pra manter e busca oportunidade de emprego.

Mamie é cinegrafista, mas também pode dar aulas de francês.

Bruna: Como foi o último dia no Congo?

Mamie: Quando saímos do Congo, minha filha estava doente, tinha hérnia inguinal.  Eu estava chorando sem parar quando partiu o ônibus rumo a Capital, onde pegaríamos o avião.

Perguntei a ela como foi a sensação daquele momento e se conseguia me descrever. Mas seu incômodo e dor,  parecem que passaram para mim (um pouco) da sua agonia. Entendi que não tinha como explicar o que ela sentiu, muito menos descrever.

O que ficou claro foi a força que ela e sua família tem para se estabelecer e refazer uma vida do zero, longe de todos que lá deixaram.

Não consigo imaginar e nem sentir a dor que sentiram. Não sei como é vivenciar isso. Mas, também não foi fácil fazer esse texto, a emoção diversas vezes me possuiu.  Meus olhos embaçaram tentando escrever, até um lencinho de papel peguei, difícil não deixar umas lágrimas escapar. Se não foi fácil para mim, que só estou relatando e contando, imagina para eles e os outros 8 mil que estão na mesma situação.

 

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Bruna Pannunzio
jornalista – colaboradora