“A mesma população que ajudou a saquear as lojas e sempre criticou a ação das polícia agora pede o socorro da Força Nacional para sobreviver à barbárie. Barbárie da qual também é protagonista. Seja como vítima ou algoz.”

Tenho assistido indignado a centenas de vídeos da onda de crimes que algumas cidades do Espírito Santo, principalmente Vitória, vivem. Bandidos assaltando e roubando à mão armada, em plena luz do dia pelas ruas da cidade, nos pontos de ônibus, nas calçadas, sem sequer se preocupar com os gritos angustiantes das pessoas clamando por socorro. São cenas fortes, impressionantes e que chocam, não só pela violência, mas pelo que isso representa para a sociedade como um todo.

Todo esse caos que causou terror e fez com que a maioria das pessoas ficassem trancafiadas dentro de suas casas, apavoradas, é resultado da greve (que constitucionalmente eles não podem fazer) dos policiais militares do estado que ainda estão aquartelados nas suas unidades. Com o gato fora das ruas, os ratos decidiram fazer a festa com a liberdade de matar, ameaçar, saquear e roubar sem que qualquer força os impeça. Isso porque são violentos e estão armados, contra uma população desprotegida e acuada.

Mas muito pior do que ver a bandidagem agindo livremente, pois eles tem isso como princípio, é saber que parte da população esteve participando ativamente dos saques às lojas e supermercados, se aproveitando do caos instalado nas ruas.

Num dos vídeos é possível ver uma família num carro razoável (estimo que ano 2010), colocando objetos eletrônicos, como TV e eletrodomésticos, no porta malas, produtos saqueados de um grande magazine.

Em outra cena absurda, vemos homens, alguns engravatados, mulheres e até adolescentes, que não tem pinta de criminosos, saindo de outro estabelecimento levando os produtos que conseguem carregar.

Vendo tudo isso é que reforço e defendo a tese de que cada povo tem o governante que merece.

O que vemos em Vitória é de nos deixar envergonhados diante do resto do mundo. As polícias se amparam no direito de greve que não possuem, mas se esquecem que são um serviço essencial e como tal deveriam respeitar o direito do cidadão à segurança pública. Mas além disso, parte da mesma população que se sente acuada e ameaçada pela bandidagem, e que grita por socorro, assume o mesmo caráter criminoso e contribui para que a situação se torne ainda mais grave.

É claro que não podemos generalizar, pois é apenas uma pequena parcela da população que se aproveita da situação. Mas que fosse uma parcela insignificante, isso não lhe dá o direito de agir à margem da sociedade pois, depois, poderá e deverá ser tratada como qualquer marginal.

Já presenciei horrores assim em São Paulo quando, durante manifestações, parte das pessoas que as acompanhavam se aproveitava de algumas vitrines quebradas por black-blocs para saquear as lojas. E assim se igualavam em nível àqueles que deveriam estar combatendo.

Voltando ao Espírito Santo, ficou claro que mesmo sendo a “repressora e truculenta corporação” cuja extinção é pedida pelas alas mais radicais da sociedade, a ausência da Polícia Militar nas ruas foi geradora dessa crise que transformou Vitória numa terra de ninguém.

Sem chances de se defender, porque é proibida pela legislação de portar armas (não que eu seja a favor disso – já escrevi num artigo anterior) a população ou se junta a eles, promovendo os saques e quebra-quebras, ou se acovarda dentro de suas casas para não morrer nas ruas.

Até agora mais de 140 pessoas morreram na Grande Vitória vítimas da onda de criminalidade.

E o que podemos aprender com a situação: que é impossível viver sem a polícia que temos hoje por mais ineficiente, truculenta e repressora que ela possa parecer; e que por mais que ela seja assim também é repressora e truculenta, quando lhe convém,  com a bandidagem e isso nos traz “certa” segurança; que determinadas atitudes nossas nos coloca ao nível dos criminosos dos quais passamos a vida tentando nos defender; e que nossa humanidade está mais perto da degradação do que imaginamos.

Quando eu digo que as pessoas estão perdendo a humanidade (veja o artigo sobre a morte de Marisa Letícia, mulher de Lula) não é apenas uma visão particular. Estamos nos tornando animais muito inferiores a cães, gatos, gado e outros mais selvagens que são incapazes de atentar contra os seus semelhantes.

“A ausência da polícia revela uma realidade assustadora: o caos ético e moral que se encontra o nosso país. Quando a polícia se torna a regra de conduta das pessoas, o instrumento de controle que as impede de cometer crimes, percebe-se a falta de consciência ética e moral. Retirada a polícia, vem a tona o desejo latente de um povo corrupto. Idiotice pensar que só políticos são desonestos. Tendo oportunidade, muitos se tornam criminosos. A conclusão é a seguinte: Se precisamos de polícia para sermos honestos, somos uma sociedade de bandidos soltos!” (Sérgio Oliveira, Teólogo e psicólogo).

No caso do Espírito Santo, além de subjugar o próximo, seu igual, as pessoas dão mostras de que aceitarão qualquer governo que venha lhes roubar a dignidade, a moral, o caráter e a integridade. Pois é sem nada disso que o ser humano tem agido ultimamente, sem se preocupar com que tipo de consequências isso pode trazer-nos no futuro.

E num futuro muito próximo!