A morte de Dona Marisa Letícia revelou um lado obscuro que tem se acentuado cada vez mais nas pessoas: o da falta de humanidade. Vi pelas redes sociais a destilação de um ódio que ultrapassa os limites do bom senso, com frases como “Já foi tarde”, “Agora só falta o marido bater as botas”, “Mereceu pelo que a família fez”… e daí para baixo.

Também não gosto do PT e das coisas nefastas que o partido (não só ele, claro) protagonizou pelo Brasil afora, mas usar isso para defenestrar uma pessoa, quem quer que seja, não passa de um desrespeito desmedido a quem já estava sendo crucificada pela situação que a cercava.

Dona Marisa, enquanto ex-primeira dama, pode até ter compactuado com as barbaridades pelas quais o marido é acusado, mas jamais poderia ser tão severamente punida por uma pseudo instância que se auto-proclamou defensora da moral e dos bons costumes. Instância essa que se esconde atrás de perfis nas redes sociais, transformando-as num tribunal individual onde tudo e todos podem livremente ser execrados, julgados e condenados.

Na verdade, isso que está florescendo no país não me parece diferente do que vimos acontecer, dezenas de anos atrás, com o surgimento da Ku Klux Klan, que disseminou o ódio contra os negros, nos Estados Unidos, ou o Nazismo que dizimou milhares de judeus na Europa. Afinal que diferença há com certos grupos aqui no Brasil que desejam e comemoram a morte de pessoas acusadas, ou supostamente acusadas, de terem cometido crimes contra a nação?

Lula e sua família merecem punição pelo que estão sendo julgados? É obvio que sim! Mas não é desejar-lhes a morte, ou o acometimento de uma doença grave, que salvará o país ou deixará a população com o sentimento de vitória sobre seus atos. Ao contrário, esse desejo, esse sentimento que muitos demonstraram carregar dentro de si, simplesmente revelam o tamanho da ignorância e da pequenez a que o ser humano pode chegar. Além disso, a morte, ao contrário do que muitos imaginam, pode ser uma salvação e não uma sentença.

As pessoas estão se tornando frias, inquisitivas, se sentindo no direito de julgar a quem quer que seja e, muitas vezes, sem ter o mínimo de conhecimento do que estão fazendo e falando. E desejar ou comemorar a morte de Dona Marisa Letícia, como vi, é um claro exemplo dessa perda de valores morais.

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Marisa Letícia: execrada no leito de morte