pai-menina

“Papai, você é lindo!”. “Papai, eu te amo!”. Papai, não vai trabalhar… fica comigo!”.

Três frases que nós últimos meses ela vem repetindo frequentemente e que me derrubam. E geralmente sempre depois de uma bronca por alguma arte ou por deixar brinquedos esparramados pela casa. Mariah está pra fazer 4 anos e vem descobrindo o poder de me “dobrar” através da meiguice do olhar e da doçura da sua voz quando diz estas frases. Chantagem pura, eu diria. Mas, com certeza, com o amor inocente que é peculiar de uma criança na idade dela.

Mariah é a terceira filha que tenho. Criei duas meninas do meu primeiro casamento que não são biológicas, mas como pai é quem cria, Mariah tem duas irmãs bem mais velhas. Sempre achei que depois das duas primeiras viria uma terceira menina na minha vida. Talvez por ter me acostumado a elas – são mais dóceis, mais delicadas, não brincam de dar socos e, geralmente, se apegam mais ao pai. Tudo bem que tive de abrir mão dos carrinhos eletrônicos e brinquedos que eu gostaria de dividir com meu filho, caso fosse homem. Mas hoje não me incomoda, nenhum um pouco, ter de participar do “jantar das Polly’s” ou trocar as fraldas da Baby Alive que faz xixi. Também desencanei de ter as unhas pintadas de esmalte pela minha “manicure particular”, mesmo que tenha esquecido de tirar o esmalte de uma delas antes de ir trabalhar (o que já aconteceu!!). A candura de uma criança consegue me colocar de joelhos.

Mas uma coisa aprendi nesse universo feminino que tenho como regra de educação: sempre tratei minhas meninas com severidade nos momentos certos e muito carinho, apoio e compreensão nos demais momentos. Nunca foram mimadas e aprenderam a dar valor, não às coisas, mas ao ser humano. Respeito e educação são coisas primordiais no seu aprendizado que vão levar pra vida toda e ajudar na formação do seu caráter. Aprenderam que dizer “obrigado, com licença, por favor, bom dia, boa tarde e boa noite” são palavrinhas mágicas que abrem muito mais que portas: abrem sorrisos e geram gentileza.

Trato minha filha como uma mulher deve ser tratada: com respeito, com carinho, com amor e paciência. Mas sem deixar de lado a repreensão, o castigo, a severidade e a ordem, quando necessário. Isso é crucial para que nossos filhos não cresçam sem controle e passem a fazer o que bem entendem. Tudo tem de ser dosado na medida certa – para não criar nem mimos, nem feridas.

Conheço bem a responsabilidade de ser homem e criar uma menina, por isso tudo que faço terá importância na formação do seu caráter. Tento fazê-la entender a importância do carinho, da compaixão, da solidariedade, de dividir as coisas e da colaboração. Fico orgulhoso e admirado quando ela propõe guardar um brinquedo que ela não usa mais para “doar pra quem precisa”, assim mesmo, nas palavras dela. E doação é uma palavra que ela entende bem faz tempo.

Tenho consciência de que tudo que eu fizer com ela ou com minha mulher, na frente dela, será absorvido como um exemplo e por isso sempre tenho cautela. Sou gentil para que entenda a essência da gentileza; educado para que ela também seja; carinhoso para que ela saiba a força que isso tem; determinado e persistente para que ela não desabe diante das adversidades e abnegado para que ela conheça o sentido da compaixão.

Como sei que serei seu exemplo de homem, a trato como mulheres devem ser tratadas: elogio-a sempre quando faz algo certo ou quando está bonita; a amparo quando esta triste ou se machuca; faço carinho, abro portas pra ela passar, agradeço todas as suas ações, digo obrigado, peço por favor e faço coisas para que aquele momento seja marcante na vida dela, mesmo que simples. Sempre que faço café, a chamo para sentir o aroma gostoso da bebida enquanto passa pelo coador de papel. E ela responde com um “Humm, que cheirinho bom de café, né papai?”. Tenho certeza de que quando ela estiver adulta, se lembrará disso em qualquer momento que sentir o cheirinho da bebida.

Não sou nenhum expert em criar filhos e nem quero ditar regras aqui. Apenas repito o que deu certo e tento evitar o que não deu. Mas olhando hoje para as mulheres que as minhas primeiras filhas se tornaram, sinto que segui o caminho certo. Se formaram bem, casaram-se escolhendo bons maridos, tiveram uma vida digna e ilibada me dando tudo isso como presente depois de mais de duas décadas de relação. Um carinho que nem mesmo a distância que nos separa consegue sufocar.

Nós, pais de meninas, precisamos entender que somos o primeiro amor da vida delas e cabe a nós honrarmos isso com sabedoria. Somos o exemplo que elas buscarão em seus namorados e maridos e essa responsabilidade deve conduzi-las a evitar ao máximo os erros. É claro que ninguém é perfeito e os erros que elas porventura cometerem servirão de lição e aprendizado mas não podemos ser os responsáveis por eles.

Cuide de sua filha para que ela se torne o tipo de mulher com quem você gostaria de se casar. Aí você terá cumprido sua missão direitinho. E saiba que essa lição ela estenderá por toda as gerações que virão depois.