Plaquetas que salvam!

Dias atrás cobri o manifesto de doadores de medula óssea que foram impedidos de se cadastrar no hemocentro de São Paulo. Eles apoiam a campanha do menino Felipe, um garoto de 3 anos de idade que sofre de uma doença rara degenerativa e precisa urgentemente de um transplante de medula. A campanha no Facebook (https://www.facebook.com/Vamos-ajudar-o-Felipe-126943840981659/timeline/) atraiu milhares de seguidores e levou até agora, pelo menos quinhentos doadores ao hemocentro.

No sábado um grupo de sessenta e uma pessoas, vindas de São Bernardo do Campo, teve problemas na hora da doação: 41 delas foram impedidas de cumprir seu propósito porque o número de doadores atingiu seu limite – uma cota de mil e cem pessoas estabelecida pelo Ministério da Saúde para a região metropolitana de São Paulo, para o mês de setembro. É claro que isso causou uma revolta dos apoiadores do Felipe que, depois de muito bate-boca com a direção do órgão e com a nossa presença, conseguiram realizar os cadastros e as coletas restantes.

Essa limitação de doadores vale para todo o Brasil e é polêmica. Imagine que você tem um filho precisando de transplante e tem de limitar a quantidade de pessoas que poderiam ser compatíveis para a doação. A primeira coisa que se imagina é “Oras, quanto mais gente, maior as chances”. Mas não é bem assim no caso dos transplantes de medula.

Nesses casos a maior compatibilidade e chance de doação vem dos pais, com 50% de probabilidade. Quando falamos em irmãos, essa taxa cai para 25%. Com pessoas que não tem nenhum grau de parentesco com o doente, as chances são mínimas. Outra coisa: os doadores de medula tem de ser, praticamente, da mesma raça ou etnia por causa da sua identidade genética. Por exemplo: não adianta ter 44% de pessoas brancas, arianas, na fila de doadores se o paciente à espera é negro. Ou vice-versa.

É compreensível a revolta das pessoas que foram barradas no hemocentro, mas é necessário entender que o sistema de limitação criado  pelo Ministério da Saúde impede que sejam feitas análises desnecessárias, gerando um custo enorme para o banco público de medula. É como a gente convocar 350 jogadores, sendo que apenas 11 vão entrar em campo. A comparação é grosseira mas é quase isso que acontece.

O Brasil é hoje o terceiro maior banco de doadores do planeta. São mais de 3,5 milhões de pessoas que fazem parte do cadastro. Somados aos do mundo todo, são vinte e cinco milhões. E todos estão à disposição de quem precisa do transplante, seja o paciente brasileiro, americano ou alemão. Mas aí esbarramos na ínfima compatibilidade de não-aparentados.

Outra coisa: cada exame para atestar a qualidade genética de um doador custa, em média, 400 reais para o Sistema Único de Saúde. O que a limitação pretende é aproveitar o que seria gasto com análises desnecessárias para investir em mais leitos e profissionais preparados para fazer os transplantes. O problema é que, do jeito que a coisa funciona no Brasil, jamais saberíamos se esse dinheiro seria realmente aplicado onde se deve.

De qualquer forma, não devemos frear as doações. Elas precisam continuar e são a chance de alguém se livrar de uma doença grave, como a do Felipe. Mas como cotas limitadas são mensais, então se você não conseguiu doar num mês, agende para o outro seguinte. E assim sucessivamente, até que seu sangue possa ter a chance de salvar uma vida!

Doar medula óssea não dói, não debilita o doador e não causa qualquer sequela ou restrição. Qualquer pessoa entre 18 e 55 anos, com boa saúde, poderá doar. A medula é retirada do interior de ossos da bacia, por meio de punções, sob anestesia, e se recompõe em apenas 15 dias. Mas isso só efeito quando encontrado um paciente com compatibilidade. Para doar, baste vc fazer uma pequena coleta de sangue. E, também importante, atualizar o cadastro sempre que necessário. Isso porque o Redome, que é a rede de doadores, tem dificuldade de encontrar 40% dos cadastrados por não estarem com seus endereços e telefones atualizados.

Doar é um ato de amor. Jamais perca a oportunidade de amar alguém desta maneira. Pense nisso!