Que a corrupção existe no futebol faz tempo, não é nenhuma novidade. Algumas das provas estão no livro “O lado sujo do futebol” de autoria dos meus colegas de profissão Leandro Cipoloni, Luiz Carlos Azenha, Amauri Ribeiro Junior e Tony Chastinet, publicado recentemente. Ali, documentos e relatos comprovam o envolvimento de dirigentes do esporte, brasileiros e estrangeiros, em corrupção, compra de campeonatos, criação de empresas de fachada e outras falcatruas que denigrem a imagem do esporte mais popular do mundo. Agora, as prisões ocorridas na Suíça a mando da justiça americana, corroboram tudo o que vinha sendo dito pela imprensa mas que a justiça brasileira, ironicamente, “não deu bola”.

Mas a corrupção, sabe-se, é muito mais ampla que isso. No Brasil já faz parte da nossa história há muitas décadas e independe de partido, filosofia política ou credo. Não só no futebol, mas em todas as áreas que pudermos imaginar. Basta ler um pouquinho só de notícias ao acordar de manhã. E posso dizer sem medo que parece já fazer parte da cultura nacional. Hoje o Brasil ocupa o 69º lugar no ranking da corrupção mundial. Graças a Deus que existem ainda outros 122 mais corruptos que nós. Mas calma que ainda não contaram os escândalos da Petrobrás, Fifa e BNDES.

Podemos dizer que a corrupção aqui começou lá atrás, há mais de 500 anos, quando os portugueses desembarcaram em terras tupiniquins “comprando” os índios com bugigangas para explorar as riquezas naturais da nossa terra, principalmente o ouro. De certa forma, esse pode ser considerado o primeiro tipo de pagamento de propina registrada nos anais da história. Tudo bem que, nesse caso, a ingenuidade dos índios, na época, poderia inocentá-los de fazer parte do esquema que hoje é considerado crime. Mas quem oferecia a propina em forma de espelhinhos, enfeites, pentes e outros objetos do mundo civilizado, sabia bem do objetivo à que os presentes serviam. Infelizmente hoje, até os índios cobram pedágio para permitir a passagem de veículos em terras que foram consideradas propriedades dos seus antepassados.

E assim é desde então. O brasileiro se acostumou com a idéia de dar ou receber um “troquinho” em troca de algum benefício, seja para si ou para terceiros. E olha que isso vai desde os mais simples atos aos mais escusos e milionários negócios.

Quem é que nunca chamou um garçom, numa festa principalmente, e lhe deu uns “20 contos” para que o atendimento fosse mais eficiente? Se você está comprando benefícios de alguém, isso não é corrupção? Nesse caso, num nível que jamais vai te levar à prisão. Mas não deixa de ser um pagamento de propina (Dic: s.f. Suborno; valor em dinheiro oferecido ou pago a alguém para que esta pessoa pratique atos ilegais; quantia em dinheiro oferecida em troca de favores). Alguns vão dizer “Ah, mas isso não é um ato ilegal”. Depende do ponto de vista. À luz do código penal, claro que não! Mas aos olhos dos demais presentes à festa, com certeza será – discriminação e favorecimento no atendimento.

É claro que não podemos classificar como corrupção a gorjeta, por exemplo, que aqui no Brasil acaba sendo paga depois e voluntariamente, mais como forma de agradecimento pelos serviços prestados por alguém e não pela obtenção de favores escusos. Mas dar “cinquentinha” prum guarda te liberar da multa ou para um funcionário publico adiantar sua papelada, isso sim pode ser considerado corrupção.

Acontece que só estamos acostumados a enxergar corrupção quando a coisa acontece no poder público, envolve valores mirabolantes, quando algum político ou governante recebe dinheiro de outrem para agilizar algum projeto, aprovar leis ou permitir obras e manobras que a interpretação pura e simples de uma lei não permitiria (lembremos aí do Mensalão, por exemplo). Mas atualmente, com as últimas notícias sobre o mundo do futebol e do petróleo, estamos aprendendo que a corrupção como crime mesmo não envolve apenas agentes públicos ou aqueles que elegemos para estarem no poder. Acontece também dentro de setores privados e de forma tão perniciosa quanto na área pública. E podem ter certeza: as investigações vão sim revelar mais adiante o estreito laço das entidades futebolísticas com quem está no poder dos países envolvidos.

Uma coisa é certa: só existe corrupção por que sempre tem alguém disposto a receber uma graninha a mais por algo que possa beneficiar a quem pode pagar. Agora discordo daqueles que dizem que a corrupção existe por causa de má remuneração. Pelo menos essa foi a desculpa mais esfarrapada que o vereador de Parauapebas, no Pará, Odilon Rocha, tentou dar semana que passou. O “digníssimo” parlamentar do SDD (Partido Solidariedade), acusado de envolvimento em fraudes que passam de 1 milhão de reais, em discurso na câmara municipal disse o seguinte: “O valor que o vereador ganha aqui, se ele não for corrupto, ele mal se sustenta durante o mês”. Realmente deve ser difícil para um brasileiro, ainda mais no interior do Pará, sobreviver com um salário de TREZE MIL REAIS por mês! Quer dizer que todo mundo que ganha um mísero salário tem direito a ser corrupto então?

No meio político corromper e ser corrompido já é moeda de troca há décadas. Além de ganhar vultuosos salários, vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e, com salários nem tão vultuosos assim, secretários, diretores e funcionários de empresas públicas, foram ao longo dos anos construindo a história do país com negociatas criminosas que desviaram bilhões de reais dos cofres públicos. Dinheiro que seria suficiente para colocar em ordem a saúde, a segurança a educação e as obras essenciais. Quando alguém do poder público rouba ele está nos roubando hospitais, postos de saúde, escolas, viaturas e tudo o mais que nos falta hoje. A corrupção corrói a dignidade de um país e dilacera o desenvolvimento.

A corrupção é cultural em nosso país e se pratica com a cara mais lavada do mundo. É o crime que nasceu com o conhecido “Jeitinho Brasileiro”, classificado apenas como uma malandragem, uma “gaiatagem” dos que se achavam mais espertos, é o ganho do dinheiro fácil em troca de um favor que não lhe custa muito. E o pior de tudo é que ainda tem gente que se vangloria de ter obtido vantagens pagando algo – seja uma carteira de motorista sem precisar fazer aulas ou uma vaga pro filho numa escola concorrida.

Acham que é possível acabar com a corrupção? A não ser que se torne um crime hediondo sem direito à fiança e com as mais altas penas, acredito que jamais. Genoíno e José Dirceu, só pra citar os mais famosos, são responsáveis pelo maior escândalo de corrupção, além do Petrolão, já registrado até hoje e, mesmo condenados, curtem suas vidas fora da cadeia. Até quando vai se permitir esse tipo de coisa? É igual ao menor que comete um crime atrás do outro porque sabe que a punição é branda.

A corrupção está no sangue do brasileiro e pode estar onde nem imaginamos que ela esteja, seja passível de punição ou não! E atire a primeira pedra quem nunca cometeu um ato de corrupção sequer. Ou você nunca deu um trocado pro flanelinha tomar conta do seu carro?