Um caso que cobri semana que passou me chamou a atenção em especial. Não porque tenha sido alguma coisa inédita – o que não foi. Mas pela repercussão que teve nas redes sociais e Whattsapp. A história, ou melhor, a “falsa história”, era sobre uma van de uma empresa de fotografias que estaria sequestrando crianças para a retirada de órgãos em várias cidades brasileiras. Na postagem, a bizarra foto do corpo mutilado de uma criança montada ao lado de uma foto da van. O texto era uma espécie de “alerta” para que os pais tomassem cuidado com essa empresa e chamasse a polícia quando a visse nas ruas. A foto da criança, descobriu a polícia depois, foi retirada de um site estrangeiro de magia negra. E suspeita-se que a calúnia tenha sido obra de algum ex-funcionário ou até mesmo de concorrentes.

O boato teria surgido em Feira de Santana, na Bahia e se espalhou pelo Brasil. Como tudo que é besteira, bizarro ou engraçado, a postagem teve milhares de compartilhamentos no Facebook. E cada um com um texto diferente, narrando atrocidades cada vez maiores que a empresa estaria cometendo com as crianças. Tudo mentira, é claro, como a própria polícia comprovou depois.

Mas mesmo que a inverdade tenha sido comprovada, o estrago já estava feito. A empresa teve um prejuízo de quase um milhão de reais em dois meses, perdeu clientes, trabalhos foram cancelados e os funcionários das vans, que ainda continuam em circulação por algumas cidades, estão sendo ameaçados de morte e expulsos delas, como me contou um deles. E, como era de se esperar, quase ninguém compartilhou o desmentido. Até mesmo quem jogou na lama a idoneidade de uma empresa que tem mais de dez anos no mercado e já fotografou cerca de 4 milhões de crianças por todo o Brasil sem qualquer problema.

Mas não é de se estranhar tantos compartilhamentos – foram mais de nove mil. Já percebi que as pessoas, em sua maioria, não tem a mínima preocupação de checar se o que está compartilhando é verdadeiro ou não. Como foi a postagem que afirmava que Suzane Richthofen (a que matou os pais) seria “nomeada Presidente da Comissão de Seguridade Social e Família”. Ou a que diz que a “Souza Cruz vai lançar o cigarro de maconha”, além da que confirmava que o “governo acabaria com décimo terceiro salário”, e por aí vai. Ah, tem também a de que o traficante Marcos Archer, condenado à morte na Indonésia, ganharia “uma estátua no Rio de Janeiro, por homenagem do governo”. Milhares de pessoas contribuindo para que essas baboseiras sejam espalhadas pela internet como se fosse verdades puras. Até mesmo no meu grupo de amigos mesmo, vi gente de certo nível de cultura e intelecto (será?) compartilhando e comentando certos factoides sem ao menos ter pesquisado sobre eles.

E sabe onde esse tipo de coisa pode dar? No prejuízo que a empresa de fotografias citadas acima está tendo e, pior que isso, nas ameaças à vida dos funcionários que estão sendo tratados como sequestradores e violentadores de crianças. Ou, pior ainda, pode resultar na morte de uma pessoa. Alguém se lembra da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos que foi espancada por moradores do Guarujá e morreu dias depois? Pois é! Alguém, por vingança ou maldade mesmo, postou na internet que ela sequestrava crianças para usar em rituais de magia negra. Fabiane acabou amarrada e foi linchada seriamente por um grupo de pessoas que ainda gravou a barbaridade e jogou na internet como se tivesse feito justiça com as próprias mãos. Cometeram sim um assassinato! E tudo causado por um falso testemunho, uma mentira, uma difamação compartilhada irresponsavelmente nas redes sociais.

Voltando ao caso do estúdio de fotografias, por enquanto, só houve danos materiais. Mas quem garante que os funcionários não possam sofrer algo mais grave? E como a empresa irá recuperar sua imagem a partir de agora, construída em mais de dez anos de trabalho? Só queria saber como está a consciência das pessoas que contribuíram com a calúnia. E aquelas que compartilharam a história da dona de casa espancada no Guarujá, será que dormem bem? Pense nessas histórias antes de compartilhar algo que pareça grave. E mesmo que não seja pra não pagar mico depois!