Desde que a crise de água se agravou em São Paulo, principalmente na Capital, estórias e teorias da conspiração tem surgido a respeito dos culpados por essa escassez. O primeiro, apontado como o principal responsável por essa situação, é o Governo. Claro, faltou planejamento, agiu com negligência por muitos e muitos anos, deixando de preparar as cidades para uma emergência como a que estamos vivendo agora e, principalmente, negou por quase um ano que estivéssemos em situação delicada em relação ao abastecimento de água, adiando assim as medidas necessárias e emergenciais.

Aí culparam São Pedro (coitado) por não ter mandado chuvas suficientes no ano passado. Também tenho lido absurdos ignorantes de que não está faltando água apenas por causa da seca e sim porque “estão desviando o líquido para a agricultura, para industrias importantes e outros setores protegidos pelo governo, blá, blá blá…”. E até vídeos tem surgido mostrando represas cheias para afirmar de a falta d’água é mentira das autoridades. Bom, não preciso postar aqui imagens aterrorizantes do cenário na Cantareira, Atibainha, Alto Cotia e outros sistemas. Eu pessoalmente estive em boa parte desses locais e pude ver de perto a situação.

Na minha opinião, deixando São Pedro de lado, todos tem sua responsabilidade. E se existe alguém, também, a quem devemos culpar, grandemente, pelo que está acontecendo, somos nós mesmos, os consumidores. O governo tem sua parcela de culpa pela falta de projetos que pudessem remediar essa escassez ao longo do tempo e não deixar pra correr atrás agora, quando as represas estão secando. Mas quem gastou água, exageradamente, sem limites ou consciência, fomos nós os consumidores. Exageros que foram para o ralo sem sequer produzirmos absolutamente nada em troca! Foi desperdício puro! E quando digo isso, não falo apenas pelo que usamos no banho, para escovar os dentes, lavar louça e roupa ou para beber. Isso seria o básico necessário! Mas me refiro aos exageros de deixar torneiras abertas durante esses processos. Além disso, sempre lavamos carros na frente de casa, “varremos” a sujeira com o jato forte da mangueira por pura preguiça de usar a vassoura, passamos horas debaixo do chuveiro no inverno para esquentar um pouco mais o corpo, ou no verão para refrescá-lo. Cansamos de mal-fechar as torneiras, permitindo que aqueles pingos “insignificantes” se tornassem um turbilhão de consumo ao final de um ano e usamos máquinas de lavar-roupa e louça, desenfreadamente, para nos livrarmos da árdua tarefa de fazer isso com as mãos, como se fez durante seculos e séculos até que elas surgissem. E gastamos milhões e milhões de litros para manter piscinas com água sempre cristalina e livre de micro-organismos. E não se culpe menos se você não tem piscina em casa mas usa a do clube.

E é preciso analisar, também, não só o consumo humano como os que citei, mas o que se gasta de água também para saciar nossa sede de consumo comercial. Me refiro a água que é utilizada nas indústrias e na agricultura, em centenas de processos, para produzir bens e alimentos que consumimos com uma voracidade inacreditável. Veja exemplo abaixo:

(Fonte: UNESCO/ONU)

É ou não um consumo absurdo? Mas e ai? O que fazer? Proibir o uso da água na produção industrial para que, ao contrário da água, nos falte alimentos, nos falte o que vestir, nos falte combustíveis ou aço para nossas construções e transportes? Alguns radicais irão dizer “Que parem tudo, precisamos matar a sede!”. Mas será que é assim que vamos resolver o problema? Não me parece o mais sensato.

O setor industrial, assim como a agricultura, os maiores consumidores de água do planeta (cerca de 70%), podem sim assumir a sua parcela de culpa e, como nós, adotar medidas de contenção de consumo. E isso já está acontecendo. Mas, em grande escala, isso poderia ter um efeito ainda danoso à nossa produção em geral. Até podemos ficar sem comprar roupas e acessórios de couro ou calças jeans. Mas quando se trata de alimentos, a sua escassez pode ser tão dolorosa quanto a da água. E outra: quem garante que estes setores vão diminuir seu consumo? Quem garante que o governo vai impor a eles qualquer sanção pelo consumo exagerado como tem feito a nós? Seria assinar uma sentença de morte dos setores produtivos em geral.

Então, amigos, cabe a nós mesmos arcar com a responsabilidade de cuidar da água que nos resta para que ela dure por muito mais tempo. É difícil ouvir isso, mas é a realidade que já estamos enfrentando.

E nosso papel não é tão complicado assim. Outro dia peguei uma conta de água de fevereiro de 2014 e comparei meu consumo com o atual, depois das medidas que adotei em casa (veja artigo a respeito aqui). Fiquei pasmo com a minha economia. Na época, eu e minha família chegávamos a consumir cerca de 48 metros cúbicos de água por mês. Hoje o meu consumo é de 14 m³. Ou seja, menos de 30% do que eu gastava antes. E minha vida não mudou absolutamente nada com essa redução. Só assim percebi que eu, assim como a maioria dos brasileiros, teríamos condições de fazer isso há muito mais tempo, de adotar medidas para reduzir o consumo  e não agir mais como se a água fosse uma fonte inesgotável. Precisamos desse chacoalhão para nos tornarmos mais conscientes. A iminência de um racionamento radical que está ai batendo às nossas portas é que nos acordou para essa nova realidade. E não vai doer nada fazer a nossa parte.

Agora, também precisamos cobrar quando virmos algo errado: chamar a atenção do seu vizinho pelo uso da mangueira, não deve ser um constrangimento. Assim como alertar à empresa de abastecimento e saneamento quando virmos algum vazamento pelas ruas. E o principal: mesmo que os níveis das represas voltem ao normal (o que está sendo tratado como praticamente impossível), devemos manter essa postura. Relaxar no consumo de água, mesmo que ela esteja sobrando novamente, vai apenas ratificar nossa ignorância à respeito dos problemas que nosso planeta enfrenta!

Então pare de reclamar e ficar apontando culpados, não dê bolas para as conspirações que surgem a todo momento na internet e faça algo de útil para contribuir de verdade!