Óculos: amigo inseparável aos 50.

Acabo de completar 50 anos de idade. Pensei que fosse demorar pra chegar, mas chegou. Também, quando pensava nisso estava lá com os meus 18 anos. E mesmo assim, não demorou muito. Não demorou porque vivi intensamente a partir do momento em que ganhei asas. E isso foi aos 19 anos, depois de perder minha mãe, que se foi três anos depois do meu pai (quando eu tinha 16). É… fiquei órfão de pai e mãe muito cedo. E com dois irmãos menores. Vivendo uma fase difícil depois da falência do meu pai, eu tinha tudo pra ser errado na vida. Sem pais, sem dinheiro e convivendo diariamente com colegas de trabalho que não eram exemplo de boa conduta.

Naquela época eu trabalhava no IPESP (Instituto de Previdência do Estado de São Paulo) junto com estagiários de um programa que empregava ex-internos da FEBEM (hoje Fundação Casa que abriga menores infratores). Digamos que a índole daquela moçada não era nada tranquila e as tentativas de me arrastar para umas “paradas cabulosas” foram incansáveis. Mas resisti. Eu era um (desculpem) “cagão”. Tinha medo até de guarda de trânsito. E graças a esse meu medo acabei seguindo meus instintos para o lado do bem. Os valores que aprendi dos meus pais falaram mais alto e isso me ajudou a me tornar o que sou hoje.

Mas eu sempre tive pavor de chegar aos 50, até chegar aos 40. Para mim foi a melhor virada. Quando entrei nos “enta” apertei o botão do “fo…-se”. Me senti maduro o suficiente para ser mais autêntico, mais sincero, mais transparente, falava o que dava na telha, perdi o pudor com alguns assuntos, me livrei daquela coisa de me preocupar com o que os outros pensam de mim. E para minha surpresa, ao contrário do que imaginava, ganhei mais amigos sinceros, conquistei uma posição mais sólida na minha carreira de jornalista e passei a dar mais importância às relações matrimoniais e à constituição da família. Isso porque nessa fase eu acabara de encerrar meu segundo casamento por, até então, não acreditar na fidelidade.

E depois de tudo isso, começar a caminhar para os 50 só me trouxe uma expectativa: chegar com muita saúde a essa, praticamente, metade da vida. Aí comecei a trabalhar nisso: me dediquei mais às atividades físicas, as baladas que antes tomavam a madrugada ficaram em terceiro plano, o sono passou a ser uma das coisas mais importantes e a dedicação ao trabalho, apesar de sempre intensa, tinha sua compensação em bons momentos de lazer e desestresse. Acho que deu resultado: cheguei aqui com fôlego de garoto (tá, um garoto de uns 35 anos) e o espírito de quem sempre sorri para a vida.

Acabei descobrindo que ter 50 anos é uma das melhores coisas do mundo. Apesar de alguns jovens de vinte e poucos anos te chamarem de tio ou dizer “pô, meu pai é mais novo que você”, ou vê-los sempre te chamando de “senhor”, a gente se sente mais respeitado. Não pelos cabelo brancos, pois eles me acompanham desde os 20 e poucos. Mas pela postura, pelas idéias, pelo jeito maduro de lidar com as coisas que a gente aprende nas porradas que leva. E levei algumas boas. Ganhei dinheiro, perdi dinheiro, casei e descasei, construí e reconstruí minha vida umas duas vezes, apanhei de maus investimentos mas descobri que nunca é tarde para recomeçar. E fiz isso quando cheguei aos 40. E do “ZERO”!

Também aprendi outra coisa: que esse negócio de não se arrepender de nada que fizemos na vida é tudo balela. Pura filosofia. A gente se arrepende sim e gostaria de não ter feito muita coisa errada. A vantagem de ter feito é que a gente aprende a não fazer de novo.

Aos 50 ainda me acho moleque. Brinco com a minha filha como se tivesse 5 anos de idade e amo minha mulher como se tivesse 17. Pedalo, quase que diariamente, como se tivesse 30. E trabalho com a sabedoria de quem, ao meio século de vida, ainda tem muito a aprender. Mais do que a ensinar. Com o passar do tempo a gente vê que idade se resume apenas à quantidade de velinhas que são colocadas em cima do bolo. Por isso nem quis bolo este ano, comemorei sem festa. E com as pessoas que mais amo neste mundo: minha mulher e minha pequena Mariah. Afinal elas serão as únicas que estarão comigo até o fim da minha empreitada terrena.

Antes, pensava que para chegar aos 50 eu tinha de ter status, patrimônio e dinheiro guardado. Hoje não tenho nada disso: ganho o necessário pra viver bem mas menos do que mereço, ainda não tenho casa própria e no trabalho acho que, as vezes, não me dão o devido valor. Mas quer saber? Sou feliz pra cacete com o que tenho e o que faço! Aprendi ao longo da vida a viver com pouco pois entendi que assim a gente não sente falta de coisas que poderia, ou gostaria de ter, mas não pode. Mas também não serei hipócrita de dizer que não penso numa “Megasena” (risos)!

Chegar aos 50 é ter a certeza de que não nos magoamos nem nos decepcionamos mais com facilidade. É saber que levamos 5 décadas para aprender algumas coisas. É descobrir que os óculos de grau são mais importantes que o celular. É vibrar com a paquera daquela “quarentona” sem ser questionado pelos amigos. É não precisar mais murchar a barriga na praia e ser chamado de tiozão sem recalques. Fazer 50 é imaginar que se tem apenas 10 anos porque “a vida começa aos 40” e nem se preocupar se a camiseta combina com a bermuda e o dockside. Estar nos 50 é chutar o balde e o pau da barraca com o cuidado de não machucar o pé e falar palavrões sem que alguém lhe chame a atenção. Estar com 50 é não ter mais 40 e ainda estar longe dos 60.

Cheguei aos 50 e não sei se vou viver mais 50. E nem quero ser um velho que, assim como um sofá, fica sendo mudado de um lado para o outro. Mas a vantagem disso é saber que o melhor da vida vivi até agora. O que vier daqui pra frente é lucro. E lucro com correção monetária!