O homem consumiu em apenas 10 meses o que agora levará, no mínimo, com muito otimismo, de 3 a 4 anos para ser recuperado. Se for recuperado algum dia. Estou falando das águas do Sistema Cantareira que abastece boa parte da região metropolitana de São Paulo. A previsão é de meteorologistas, fazendo um cálculo do que choveu nos últimos dias. Nos sete primeiros dias de novembro a precipitação foi de 54,7 mm, segundo a Sabesp – mais do que choveu em todo o mês de outubro. Mas isso não fez a mínima diferença no nível do Cantareira, que continua caindo. O problema é que o solo está muito seco e rachado e a água que cai é absorvida mais rapidamente por essa imensa esponja gigante de terra. Calcula-se que, para chegar a 80% da sua capacidade, o sistema precisa receber água de chuva constante e homogênea pelos próximos 3 anos, no mínimo. Mas como a chuva nunca é homogênea e nem constante, esse prazo pode se estender ainda mais.

São necessários mais de um trilhão de litros de água para se chegar a esse nível. Isso corresponde a 406 mil piscinas olímpicas. Preocupa ou não?

De certa forma, toda essa crise hídrica que estamos vivendo veio nos mostrar a irresponsabilidade com que sempre consumimos e desperdiçamos água. E, infelizmente, a gente só aprende na porrada. Agora estamos correndo atrás do prejuízo, tentando remediar uma situação que não se sabe se poderá ser remediada. Entendam que trazer água de qualquer outro lugar, com obras custosas e demoradas, apenas vai desvestir um santo para vestir outro.

O governo errou, como sempre, em não ter um planejamento adequado que previsse essa tragédia. E nós também, admitamos, nunca colaboramos com o consumo racional lavando carros e calçadas regularmente com a água a escorrer fartamente pelas torneiras, com banhos demorados, vazamentos e desperdício desenfreado. Hoje, tendo adotado as medidas de economia que muitos estão adotando, podemos perceber o quanto jogamos fora um líquido tão precioso. E que somente agora estamos tendo consciência da sua importância.

Na minha casa adotei medidas nas quais nunca pensei: a água que sai da máquina de lavar agora é acumulada em latões que adquiri. Depois é reaproveitada na lavagem do quinta e garagem. Fiz adaptações na lage da garagem para coletar a água da chuva que, filtrada, pode ser usada até para lavar louça, na máquina de lavar e para a limpeza do carro. No banheiro, a água que escorre da ducha até a temperatura ficar ideal para o banho, é coletada em baldes e depois despejada na caixa acoplada do vaso sanitário para descarga. Além disso reduzi a pressão dos registros que distribuem água pela casa para diminuir a vazão das torneiras. Resultado: uma economia de mais de 60% no consumo. Agora me pergunto: porque nunca fizemos isso antes? Porque nunca nos preocupamos que um dia a água poderia nos faltar como agora? A resposta é simples: porque tínhamos água em abundância e sequer pensamos que um dia ela poderia acabar ou chegar a níveis de racionamento como vivemos hoje.

Fiz questão de editar o vídeo abaixo para ilustrar as medidas que adotei. Alternativas que não me custaram mais que 200 reais – pode ser muito para a maioria das pessoas, mas é um valor que consegui compensar em apenas dois meses de economia na conta.

Sem gasto nenhum, apenas com adoção de novas rotinas, também é possível alcançar uma boa economia. Veja:

– diminuir os banhos de 15 para cinco minutos: 90 litros de água economizados;
– escovar os dentes ou fazer a barba com a torneira fechada, abrindo-a apenas para a lavagem da escova ou do aparelho: economia de 5 litros;
–  aproveitar o banho para fazer xixi no ralo do box: 5 litros da descarga poupados;
– molhar a louça, fechar a torneira, passar a esponja em tudo e só depois enxaguar: 8 litros;
– aproveitar a chuva para lavar o carro: pelo menos, economia de 100 litros;
– coloque 1 garrafa PET de 2 litros (ou duas pequenas de 500 ml cada, se não couber), cheia de pedras, dentro da caixa de descarga acoplada. Elas vão ocupar o espaço que seria preenchido com água: economia de 1 a 2 litros a cada descarga;
– reaproveite a água da chuva na máquina para lavar tapetes e panos de chão: pelo menos 40 litros a cada lavada. E depois reaproveite a água dos enxagues para lavar o quintal;
– para quem tem, use mais a máquina de lavar louça. Ela trabalha com muito menos água do que uma torneira aberta: 8 litros;
– máquinas de pressão (tipo Vap) também economizam muito mais água do que uma mangueira, se o uso for imprescindível: 50 litros a cada 15 minutos.

É claro que alguma dicas dão um pouco mais trabalho que outras. Mas o sacrifício valerá quando você ver na conta a economia que fez e o tanto que poupou. Afinal não estamos num momento de se brincar com o consumo de água.

Aproveito também para mostrar-lhes um vídeo que me comoveu muito e me fez pensar a respeito de economia. Ele narra um texto escrito em 2002 sobre falta d’água no futuro. E lhes digo uma coisa: é arrepiante pensar que um dia isso pode realmente acontecer.

Mãos à obra!