Enfrentar o trânsito sobre duas rodas: tarefa amarga.

A cada dia tenho me tornado cada vez mais ciclista. Por enquanto é apenas para a prática do esporte como forma de manter uma vida mais saudável. Pedalo diariamente cerca de 15 quilometros pela região onde moro e, com essa frequência, posso afirmar que os ciclistas, sejam eles trabalhadores ou meros esportistas, ainda não recebem o devido respeito dos motoristas.

Outro dia eu estava trafegando por uma rotatória, cuja preferencial era minha, e quase fui atropelado por um motorista que não respeitou meu sinal de conversão (dado com a mão). E muito menos a placa de PARE estampada na cara dele. Reclamei, pedi mais atenção e ainda assim ganhei um dedo médio erguido no ar como quem diz “FODA-SE!”. Segui em frente porque, pela reação do camarada, discutir com uma anta (o animal mesmo) com a qual eu tinha cruzado momento antes, teria sido mais produtivo e eficiente.

Canso de ler relatos de ciclistas em todo o tipo de mídia, especializada ou não, sobre esse tipo de “autoritarismo” dos
motoristas nas vias. É claro que não são todos, mas uma grande maioria ignorante que não está nem aí para a lei que diz que as ruas são espaços para serem divididos entre carros, motos, bicicletas,utilitários, ônibus e pedestres. Provavelmente um indivíduo que tem uma atitude como essa, digna de um imbecil, nunca usou um bicicleta. Talvez nem na sua insignificante infância.

Atitudes assim me revoltam num momento em que a sociedade grita por mais gentileza. Gentileza em qualquer lugar e situação. Gentileza nas ruas, no supermercado, com seu vizinho, com pessoas desconhecidas no ônibus. Gentileza que gera uma sensação de bem estar que está acima de interesses pessoais. Gentileza que não tenho visto, principalmente no trânsito, seja quando estou de bike, ou quando estou de carro.

Mas no caso dos ciclistas essa falta de gentileza pode ser, muitas vezes, fatal. E não culpo apenas a falta de educação de certos motoristas. Culpo também a falta de uma vontade política que dê mais importância a presença das bicicletas nas vias. Não há ciclovias suficientes, sinalização suficiente, não há segurança apropriada para que nós ciclistas possamos circular com tranquilidade, a não ser num parque, num feriado, num domingo de ciclofaixa.

A crescente presença de ciclistas nas ruas de todo o país é evidente. Basta você começar a observar a quantidade de pessoas pedalandodiariamente por aí. Indo e voltando do trabalho, da escola, da faculdade, da academia ou de um simples passeio. Na europa, em 2013, as bicicletas foram mais vendidas do que carros novos pela a primeira vez, em praticamente todos o países, e a comemoração foi geral. No Brasil, a venda de bikes já supera a de carros novos há pelo menos quatro anos e ninguém vê isso com euforia. Claro, elas não consomem combustível (que gera renda), rende pouco em impostos (menos de 1/3 da alíquota dos carros), não geram financiamentos e não tem qualquer influência na indústria da multa e na da emissão de CNH (que rende um absurdo para o Detran e as auto-escolas). Comemorar pra que, então?

Infelizmente, ainda vejo distante a aposta em ciclovias como solução da mobilidade urbana, principalmente numa cidade como São Paulo. E estender um pedacinho da que já existe na Marginal Pinheiros, não vai resolver o problema. A solução passa por um projeto muito mais abrangente que envolve redirecionamento do trânsito de ruas e avenidas, alargamento de pistas e outras obras custosas ao estado. E por isso mesmo é que as autoridades não estão nem aí para a questão.

Mas já seria de bom tamanho a adoção de mais medidas protetivas aos ciclistas, como multas mais altas a motoristas que os desrespeitarem, criação de mais ciclofaixas, mesmo que seja nos fins de semana e feriados e, o mais importante, SEGURANÇA CONTRA ASSALTOS para quem pedala por aí. Ah, e seria muito bom uma REEDUCAÇÃO dos motoristas, para que imbecis como aquele que citei no inicio, aprendam a entender que a rua é para todos!

Pedaladas diárias com atenção redobrada.