Cracolândia: fim dos barracos, mas não do vício.

Essa semana que passou a prefeitura de São Paulo lançou mão de mais uma tentativa de livrar as ruas do centro, mais propriamente a chamada “Cracolândia”, dos usuários de drogas. Mas desta vez, a tentativa difere do que fez a administração de Gilberto Kassab que numa tentativa estapafúrdia revestida de “internação compulsória”, acabou esparramando os viciados por vários pontos da cidade, até mesmo no Jardins, bairro nobre da capital. O que se fez agora foi cadastrar os moradores de rua viciados daquela região, acomodá-los em hotéis baratos (de graça, claro) e dar-lhes café da manhã, almoço e jantar. Também sem custo nenhum para eles. Quem topou fazer parte do programa, além de receber estes benefícios vai ter de trabalhar seis horas por dia na manutenção e limpeza de parques e praças ganhando 15 reais por dia trabalhado. Ao final de um mês, serão 450 reais se não houver faltas ao serviço. O programa, que já está sendo chamado de “Bolsa Crack”, parece uma boa idéia. Mas só parece!

Em primeiro lugar, a ver o estado psicológico e de saúde da maioria dos viciados, se percebe de cara que o que eles mais precisam é de tratamento médico e internação. E isso o programa não prevê. Também não está sendo considerada uma boa idéia te-los colocado em hotéis na mesma região por onde perambulavam. Alguns darão menos de 30 passos do quarto onde estão para a calçada onde estavam. Apesar de muitos com quem conversei terem a intenção de se afastar das drogas, eles vão continuar sob a tentação e sentindo até o cheiro da fumaça dos cachimbos de crack que vão continuar sendo usados por ali, já que muitos rejeitaram a mudança. E outra: a intenção do programa não é fazer com que eles parem de fumar a droga imediatamente, portanto, não há nada que vá trabalhá-los nesse sentido agora. Em resumo, eles vão poder continuar fumando tranquilamente seus cachimbos, mas agora sob a proteção de um quarto de hotel. E só vão trabalhar nos dias que quiserem porque não serão obrigado a isso. Só não vão receber pelas faltas.

O que os programas de Kassab e Haddad tem em comum? O objetivo! Na verdade, às vésperas da Copa do Mundo o que se tenta mais uma vez é varrer a sujeira para debaixo do tapete, deixar a cidade “aparentemente” limpa da cracolândia. Só que desta vez ao invés de esparramar os viciados, esconderam boa parte deles dentro dos hotéis, livres dos olhos dos turistas.

“Mantê-los aqui, na mesma rua onde moravam não foi nada inteligente. É um passo para a recaída” reclama um dos usuários que se negou a ir para o hotel. Outro problema que se prevê é que muitos poderão morrer de overdose dentro dos quartos, coisa que não acontecia na rua porque sempre tinha um monte de gente em volta que ajudava e chamava o Samu. “Agora, se o camarada entrar, trancar a porta e fumar além do limite, sabe-se lá o que pode acontecer”, profetiza o usuário. Dar a eles um espaço discreto como um quarto de hotel também vai permitir que eles recebam os traficantes com tranquilidade.

No dia em que acompanhei a “Operação Braços Abertos” para o Jornal da Record, conversei também com gente esperançosa. Mas eram, principalmente, casais. A possibilidade deles terem sua intimidade longe das ruas num quarto que não precisem dividir com outros viciados deu-lhes a esperança de sair dessa vida, de construir uma família de verdade, se livrar do vício. Por esse lado e se não houver recaída, o programa até que pode ajudar alguns a se salvarem.

Esperemos até o fim da Copa e das eleições para ver no que isso vai dar. Como já se tem noticiado que muitos dos inscritos no Braços Abertos passam o dia fumando a droga em seus quartos, muitos acreditam no fracasso do programa e que ele seja mais uma jogada eleitoreira do que uma ação humanitária.