Nunca saberemos ao certo se teremos mais tempo para viver o presente ou para aproveitar o futuro

Recentemente recebi a notícia de que um amigo querido, no alto dos seus 42 anos, descobriu que está com câncer terminal no cérebro. Mal fiquei sabendo disso, descobri que ele já estava em coma na UTI, sem chances de voltar. Levei um choque. Poucos meses atrás ele estava na minha casa e, como dono de pizzaria, preparava várias delas na estréia do forno a lenha que tenho. Sempre sorridente e brincalhão, conversávamos sobre “virar a mesa”. Ele queria sair do ramo de pizza delivery e tentar outra coisa – só não sabia o que. Desejava algo que lhe trouxesse um pouco mais de felicidade e liberdade. Tempos depois descobriu o câncer em estado adiantado ao fazer uma tomografia para saber a origem de uma dor de cabeça que ele nunca teve antes.

Saber que um grande amigo, de repente, está perdendo a vida tão cedo me fez repensar num monte de coisas. Primeiro, no quanto somos frágeis – um dia estamos alegres e confiantes, fazendo novos projetos, no outro podemos não estar mais entre aqueles que amamos. Segundo, fiquei me perguntando onde queremos chegar, o que pensamos do nosso futuro, o que desejamos para a nossa vida. E uma interrogação vem me incomodando desde então: devemos nos preparar para um futuro confortável, adquirindo alguns bens e formando uma boa aposentadoria que possa nos garantir isso ou viver da melhor maneira possível agora, viajando, fazendo as coisas que sempre quisemos fazer, sem ter o apego a coisas materiais, sem pensar em guardar dinheiro de forma compulsiva como muitos fazem? Acredito que você deva ter as mesmas inquietações.

Depois de ter passado por alguns percalços que me fizeram recomeçar a vida do “zero” aos 40 anos de idade, acabei me tornando um pouco mais precavido em relação ao futuro. Ainda mais agora com uma família e uma filha de dois anos pela qual ainda terei anos e anos de responsabilidade. Tento guardar dinheiro para formar uma boa aposentadoria que me dê tranquilidade quando decidir parar de trabalhar e ainda deixar algo para que minha filha possa iniciar sua vida após concluir os estudos, sem as dificuldades pelas quais eu passei quando jovem. Mas não sou radical – as vezes abro mão da poupança habitual para realizar um desejo familiar, seja uma viagem ou uma aquisição especial, como trocar o carro, por exemplo. Ai vejo a situação do meu amigo e me questiono se ele fez tudo o que queria ter feito da vida em detrimento de ter construído uma situação confortável para o seu futuro. Que futuro ele teria?

Muitas vezes a vida nos dá recados claros. No meu caso, achei que os tropeços que dei eram para me acordar de condutas erradas que sempre tive em relação ao meu dinheiro. Nunca fui precavido com ele e quando “quebrei” fiquei sem chão para recomeçar a vida. Por isso me tornei mais consciente em relação a isso. Mas, assim como eu, acho que a maioria da pessoas vive nessa encruzilhada: como conciliar o “viver o presente” com o “garantir o futuro”. Quero colocar em debate aqui essa fragilidade da permanência em vida e me pergunto: de que adianta passar a vida toda construindo um futuro se podemos acabar não curtindo esse futuro como  muitos que vão embora cedo? Mas se eu não fizer isso e enfiar o pé na jaca, como terei segurança suficiente lá na frente para terminar meus dias com certo conforto? Talvez só os consultores financeiros ou os espirituais tenham resposta pra isso.

Cada um tem sua filosofia e suas metas. Não sou filósofo nem vidente para saber o que irá me acontecer, então opto pelo meio termo – aproveitar o melhor que posso hoje com a minha família sem deixar de fazer um pequeno pé de meia para o futuro. Sei que para muitos isso é difícil, mas não conheço outra saída. Ainda tenho muito que aprender e prefiro aproveitar mais meus dias de vida do que ficar comprando espaço em cemitério ou poupando para a cremação. Quem, como eu, tem dificuldade de se calçar pro futuro, e isso aconselho a todos, pelo menos ame mais, divirta-se mais, ria mais de si próprio e sorria mais para todos. Seja o melhor amigo que alguém possa ter, o melhor pai, o melhor filho, o melhor marido ou companheiro. Faça mais e não se preocupe em errar mais, tente não acertar tanto. Brigue menos, reclame menos ainda e perdoe mais. Saiba aceitar seus próprios defeitos e aprenda com eles. Assuma todos os seus erros e não critique se você não puder fazer melhor. E se for criticar, faça-o com gentileza. Seja mais gentil em tudo, até com aqueles que lhes dão as costas. Seja mais sincero e não se preocupe com o que os outros vão pensar. Se por acaso machucar alguém, não espere pelo perdão, apenas peça-o. E, por fim, faça pelos outros o que você gostaria que fizessem por você.

Acho que essa é a receita. Se formos embora antes do tempo que desejamos, pelo menos teremos cumprido nossas vidas da maneira que tem de ser.