Políticas de segurança: o cidadão refém da insegurança

Um levantamento recente, feito nos nos Estados Unidos, revelou que a cidade de Nova York está se tornando uma das cidades mais seguras do país. Os dados mostram que o número de homicídios vem caindo desde os anos 90 e chegou a marca, hoje, de um sétimo do que era registrado naquela época. Enquanto há 20 anos os casos de assassinatos passavam dos 2.200 por ano, em 2013 registrou-se apenas 279 homicídios até o último dia 31 de outubro – uma queda de mais de 20% em relação ao mesmo período do ano passado (364 casos). Se a média for mantida, a cidade chegara ao final do ano com menos de 1 assassinato por dia.

Com essa marca, Nova York está atrás apenas de outras três cidades americanas com menor índice de mortes: Plano (Texas), Lincoln (Nebraska) e Henderson (Nevada) que tem menos de 500 mil habitantes, enquanto NY chega a quase 10 milhões.

Cito essa realidade americana para contrastar com a nossa e mostrar o quanto o desenvolvimento de políticas públicas de segurança tem resultados significativos quando aplicadas com seriedade e responsabilidade, diferente do que acontece aqui onde nem existem políticas assim a não ser botar mais policiais nas ruas sem nenhum preparo.

Só para começar a comparação, dá pra ver que os números americanos são atuais (31/10) enquanto o último levantamento feito no Brasil, divulgado agora, remete a 2012. E dá medo até de ver os números brasileiros. Mas vamos lá!

No Brasil, no ano passado, foram registrados – sente-se, tome fôlego e prepare-se – 50 MIL HOMICÍDIOS!! 7% A MAIS QUE EM 2011. E, pasmem, MAIS DE 90% SEM SOLUÇÃO. Só em São Paulo, o número de ocorrências chegou a 1.391 entre novembro de 2011 a agosto desse ano – média de quase 700 casos por ano. Mais que o dobro da maior cidade americana. E vale lembrar que, assim como aqui, lá a população também convive com traficantes, milícias, gangues e crime organizado. Sem contar as máfias (chinesa, japonesa, italiana, romena, etc) que aqui praticamente não tem semelhantes (e não me venham falar de PCC, por favor!).

E porque no Brasil ninguém faz nada para reduzir estes números vergonhosos? Porque insegurança dá lucro! É a indústria dos alarmes que ganha, a dos vigias, dos seguranças pessoais, as seguradoras, as empresas de monitoramento, as de blindagem de veículos, as fábricas de porteiros eletrônicos, de câmeras, as que constroem portões automatizados, os serralheiros que fazem grades, os condomínios cujo metro quadrado é mais caro, e por aí vai uma lista imensa de lucradores, além do governo. Soma-se a isso, ainda, um justiça ineficiente e lerda que permite que a impunidade impere e que criminosos, de colarinho ou não, reinem absolutos por aí. Tudo isso gera mais e mais impostos. Só que a gente não vê um centavo sequer investido decentemente em segurança. E quando vê, são apenas investimentos que não tratam do problema na sua raiz – são mais ações eleitoreiras e superficiais do que qualquer outra coisa.

É claro que haverá aqueles que dirão que a comparação que estou fazendo é estapafúrdia por causa das diferenças sociais e culturais aqui e lá. Mas temos de levar em consideração que reduzir o número de homicídios de 2.200 para 279 (quase 8 vezes menor) em 20 anos é um feito memorável. Enquanto isso aqui essa redução foi de 4 vezes em 10 anos.

Estamos longe de ser uma Nova York em vários aspectos. E enquanto tivermos um governo cujo projeto é manter a população sem cultura, sem educação e sem segurança para que se possa controlá-la melhor, usando as “bolsas-vagabundos”, estaremos mais longe ainda, nos distanciando cada vez mais da seriedade que esse país, pelo seu porte e recursos, poderia ter.