Semana que passou, mais uma vez dentre as dezenas de vezes em que isso aconteceu, me senti profundamente comovido com o drama de famílias que conheci em razão de uma reportagem que tive de fazer. O caso não é diferente de milhares de outros que vemos estampados nas manchetes de jornais e talvez nem tão trágico como o de um menino que mata a família toda e se mata depois ou o do pai que joga a filha pela janela do apartamento. Mas choca, pelo menos a mim, pela reação das famílias envolvidas e pelo fato provocador em si.

A história começa numa sexta a noite quando um grupo de jovens, a maioria adolescente, se reúne para fumar narguilé na rua onde moram na periferia de Mogi das Cruzes. Eram mais ou menos doze rapazes e meninas entre 13 e 22 anos. Nada demais, nada de ilegal, garotos e garotas de família sem nenhuma ligação com o crime. De repente dois carros em altíssima velocidade, tirando racha, perdem o controle e voam sobre o grupo matando seis adolescentes. Outros três, também atingidos pelos veículos, conseguiram escapar da morte por milagre. Um dos carros consegue fazer uma manobra e foge. O outro, que arrastou parte do grupo por cerca de vinte metros, parou depois de capotar. Dele desceram cinco pessoas que também fugiram mas foram presas depois de algumas horas.

É mais uma tragédia que esfacela famílias, mas que se tornar ainda mais lamentável pelos motivos que provocaram essas mortes: além do abuso da velocidade, da transgressão de leis de trânsito, o motorista, um homem de 41 anos, estava embriagado. Isso é prova, junto com centenas de outros casos, de que a impunidade para motoristas que dirigem sob o efeito de bebida alcoólica continua fazendo vítimas a cada dia.

Recentemente a Lei Seca se tornou mais rigorosa, adotando a “tolerância zero” para álcool ao volante. A multa subiu para quase 2 mil reais e a proibição de dirigir por um ano complementa as sanções. Mas pelo que vemos nada disso tem adiantado. A fiscalização é ineficiente e a justiça ainda mais lerda e inócua para colocar esses assassinos de uma vez por todas atrás das grades. Cansei de acompanhar blitze pela madrugada afora e ver um monte de gente embriagada indo embora com seus pais, irmãos, mães ou amigos dirigindo, depois do bafômetro comprovar que o teor alcoólico no sangue estava muito, mas muito acima do zero. Claro, foram autuados, receberam a multa e alguns, apenas alguns tiveram a carteira apreendida. Com certeza continuam a dirigir por aí sem habilitação e talvez até bêbados de novo. E sabem porque? Porque a probabilidade de se cair numa blitz da lei seca em São Paulo é de uma chance em mil. A não ser que você esteja na região dos Jardins, Vila Madalena, Moema, Perdizes, Pinheiros e Santana e algumas regiões (muito poucas) da periferia, locais mais visados por causa da quantidade de bares e restaurantes, pode beber tranquilo e cair na estrada que não vai haver problema nenhum. Falo isso de carteirinha porque, morando há mais de quatro anos em São Paulo, nunca fui parado numa blitz. Isso porque dei sorte? Não! Foi porque quase nunca vi blitze de Lei Seca por aí a não ser nas que acompanhei para reportagens da Record.

Não quero dizer que a culpa é só das autoridades responsáveis por isso. Mas essa ineficiência, esse relaxamento que acontece logo após o lançamento de uma nova campanha contra acidentes de trânsito, faz com que os motoristas irresponsáveis continuem bebendo, dirigindo e matando pelo país afora. Só queria saber até quando mais eu vou ter de fazer reportagens sobre a drama de famílias que perdem seus filhos, irmãos e parentes para imbecis irresponsáveis que acreditam que três latinhas de cerveja não fazem efeito na sua maneira de dirigir? Quer saber o que eu acho que tinha de acontecer nas blitze? O camarada que bebeu sair dali algemado, jogado dentro de um camburão e levado direto pra passar, pelo menos, umas duas noites na cadeia. Porque não? Se eu for pego com uma arma nas mãos, sem porte e registro, andando de madrugada pelas ruas fica mais ou menos claro que eu tenho a intenção de matar alguém, mesmo que seja pra me defender. Porque um cara que dirige bêbado tem de ter tratamento diferente?

Enquanto as atitudes das pessoas não mudarem, não adianta tornar as leis mais rigorosas. Mas, infelizmente, num país em que nossos governantes e políticos dão esse exemplo nefasto e repugnante de bandidagem sem que as leis os atinjam, quem é que vai ligar para punições? A coisa é mais séria do que se imagina.

Pra finalizar, vejam esse vídeo abaixo. É de uma campanha nos Estados Unidos contra álcool e direção e teve a veiculação proibida no Brasil porque nossas autoridades a consideraram “forte demais”. É isso que a gente tinha de ver na TV para que as pessoas realmente tenham consciência do problema.

http://www.youtube.com/watch?v=Z2mf8DtWWd8