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Um ano atrás: meu irmão passa a carregar uma parte de mim

Quando criei o blog, há mais ou menos seis anos, minha intenção era dividir com meus leitores minha dúvidas, insatisfações, vitórias, tropeços e tudo mais da vida que nos cerca. Como o próprio nome diz, Um olhar sobre a humanidade, minha intenção é abordar temas que, de uma certa forma, mexem com a vida de todos nós. E muitas vezes quem escreve aqui não é o Ogg jornalista, mas o Ogg cidadão que, assim como vocês, questiona o que acha errado e tenta entender por que certas coisas acontecem como acontecem. Além disso, expor aqui um pouco das minhas experiências na vida pessoal, pode ajudar alguém que se identifica com as histórias a entender e aceitar certos acontecimentos. Por isso gostaria de voltar a um assunto que causou muita repercussão um ano atrás, pelo lado positivo, e despertou em muitos leitores a vontade de fazer o mesmo.

Nesse dia 17 de setembro completa exatamente um ano em que recebi o maior presente da minha vida – poder doar uma parte de mim a alguém que amo. E assim me tornei efetivamente um doador de um rim para o meu irmão que sofria de um mal hereditário. Se para ele foi um dádiva, para mim ter a oportunidade de fazer isso – fosse por ele ou por outra pessoa – foi a maior bênção que já recebi.

Como alguns de vocês devem se lembrar quando relatei aqui da primeira vez, quando tomei a decisão de fazer essa doação, não pensei nas consequências e não quis saber nem se eu teria qualquer restrição a partir dali. Só fui estudar os reflexos de uma doação do tipo quando já fazia os exames necessários para constatar se havia compatibilidade entre nós. Assim, ao longo do processo, depois de conversar com especialistas, fazer reportagens sobre o tema, ler todo o tipo de literatura médica sobre doações de órgãos, fui descobrindo que eu tinha tomado a decisão mais acertada da minha vida e que isso não me traria qualquer problema ou restrição. E mesmo que houvesse alguma, qualquer que fosse, eu o teria feito da mesma forma. Ver a luz nos olhos do meu irmão hoje, sua saúde impecável e a transformação para melhor que isso lhe proporcionou, compensam qualquer sequela que eu pudesse ter. E não tenho absolutamente nada! Pelo contrário, me sinto até mais saudável que antes. Não mudei alimentação, nem rotinas e nada me foi imposto por orientação médica depois da cirurgia. A vida segue tão normal quanto antes, e até melhor, digo. E ao relatar isso, quero tocar fundo no coração daqueles que estão aptos a fazer o mesmo, mas tem certos receios.

Quando disse aqui que iria fazer essa doação, e depois quando a fiz, recebi dezenas de comentários de pessoas que tinham receios mas que estavam mais seguras ao saber do meu exemplo. Não que eu queira servir de exemplo para alguém, mas relatar minha experiência e suas consequências benéficas ajudou muita gente a fazer o mesmo. E com certeza, muitas vidas foram salvas ou, no mínimo, prolongadas.

Vejo muitas pessoas se dizendo doadoras de órgãos, mas quando estão diante de uma hipótese de realmente efetivar esse desejo, sentem-se inseguras com o que lhes pode acontecer depois. É claro que a vida de cada um será diferente de acordo com a saúde que tinha antes da doação, como no meu caso que nunca tive problema algum de saúde, mas a sensação de cumprir uma missão como essa é insuperável. Sabe quando a gente passa a vida inteira agradecendo as bençãos que recebemos e ficamos pensando de que forma iremos agradecer tudo? A doação é a oportunidade que temos pra isso.

Decorreram 365 dias, um ano inteiro de felicidade, 12 meses de alegria por saber que não só meu irmão sorri mais abertamente desde então, mas também seus filhos, minha cunhada e toda a minha família que o terão presente por muito mais tempo. Pelo menos os meus sobrinhos não passarão pelo que eu e meu irmão passamos ao ver meu pai morrer quando ainda éramos adolescentes como consequência do mesmo problema.

A eles, meu pai e meu irmão, dedico este artigo nesta data tão importante que comemoraremos pelo resto de nossas vidas como se fosse um segundo aniversário, o momento em que renascemos. Ele com sua saúde e eu com um ato que me fez entender o real e amplo significado de palavra doação. Não só de órgãos mas, principalmente, o doar um pouco de si próprio a quem precisa. Doar amor, compreensão e compaixão”.