Atitude teria sido motivada pela relação ruim com os pais?

Chegamos à quarta semana de investigação no caso Pesseghini. E ao que tudo indica – pelo menos é o que a polícia afirma – foi mesmo o menino o autor dos disparos que mataram o pai, a mãe, a avó, a tia-avó e ele próprio. Difícil acreditar, mas parece ser o que o resultado final apontará, infelizmente. Digo “infelizmente” porque, como ser humano, como pai, como cidadão, não quero acreditar em certas barbaridades cometidas por aí. Eu preferia crer numa conspiração policial a atribuir a um menino de treze anos a autoria de um caso tão estarrecedor. Tudo muito bem planejado, tudo muito bem estudado, como se o que ele fez tivesse sido arquitetado por alguém com muito mais experiência de vida. Mas não serei como alguns lunáticos por aí que falam em possessões demoníacas e acham normal o fato de um menino assassinar a família desta forma (como fez também Suzane Richthofen), como se fosse a coisa mais comum do mundo, se baseando em outros casos de parricídio (crime em que se mata pai, mãe ou qualquer outro ascendente legítimo). Como jornalista, tenho de acreditar sempre numa outra hipótese para não perder a razão, o bom senso e manter acesa a chama da curiosidade, sem o conformismo e a mediocridade dos que aceitam tudo que lhes é empurrado goela abaixo.

Mas se o menino realmente fez o que fez, o que me assombra mais são as hipóteses que podem tê-lo levado a isso. Vamos por partes: sabe-se que ele tinha uma doença degenerativa, não tinha a mesma saúde de meninos da sua idade e, por isso, tinha limitações físicas que o impediam de andar de bicicleta, correr, jogar bola e outras atividades. Também tomava remédios que poderiam alterar o seu comportamento, apesar da médica negar. Era filho de pais militares e, possivelmente, vivia sob uma educação repressora, mais rígida e severa, inclusive por causa de sua doença. Sabe-se também, através de depoimentos, que os país viviam brigando e, como é comum acontecer, teriam descarregado essa ira em cima do menino. Por várias vezes ele também teria reclamado em sala de aula, com os amigos, que se sentia abandonado pelos pais, solitário. Tudo isso deve ter moldado nele um sentimento de dor, ódio, isolamento e sabe-se lá o que mais. Na verdade os pais devem ter criado seu próprio assassino.

Não precisa ser nenhum especialista para dizer que o comportamento desse menino teria sido fruto da sua relação com os pais, da educação que recebeu. Mas como em todos os casos semelhantes, sempre há um gatilho que detona tudo. E nesse caso, essa é uma resposta que foi enterrada junto com o garoto.

De qualquer forma, o caso deve nos fazer pensar melhor sobre a relação que temos e a que queremos com nossos filhos. Se eles um dia se transformarem em monstros, devemos saber que isso será por nossa própria e exclusiva culpa. Independentemente de terem alguma doença que altere suas atitudes. Influência de jogos, de amigos de escola, influência da sociedade? Isso é pura besteira. Senão teríamos um batalhão de adolescentes assassinos espalhados pelo planeta. Um jovem com uma boa formação e educação  jamais vai deixar se levar por isso. Não podemos culpar a sociedade em que vivemos pelos descaminhos dos nossos filhos. Eles são resultado de suas próprias escolhas. Escolhas estas resultado daquilo que eles recebem e aprendem de nós, pais. E posso dizer isso com a experiência de quem perdeu os pais ainda adolescente, com dois irmãos mais novos e sem ter herdado nenhum suporte econômico. Sozinhos e sem dinheiro, mas com perseverança, conseguimos superar todas as adversidades e nos tornarmos quem nos tornamos porque soubemos usar aquilo que aprendemos com nossos pais. Tínhamos dois dois caminhos a serem seguidos – o da bondade e o da perdição – escolhemos o que nos foi ensinado que era o certo.

Nossos filhos são fruto do amor, do carinho, da compreensão e apoio que lhes damos e das limitações que lhes impomos e por isso ainda prefiro me indignar e não aceitar atitudes como esta a ter que acreditar que elas existem. Quem se conforma com isso, se conforma também com a possibilidade que os seus tenham a mesma capacidade mórbida e cruel de fazer igual. Sendo ou não o menino o autor dos crimes, o caso serve para que os pais pensem bem na relação com seus filhos para não correrem o risco de estarem  alimentando seu próprio algoz.