Brasileiro não sabe protestar, não sabe fazer manifestação, não consegue realizar um levante decente. Falo isso pelo que estamos vivenciando em São Paulo, por causa do aumento na tarifa de ônibus. O que deveria ser um movimento inteligente, sério, responsável e vitorioso acabou descambando para a baderna descontrolada. E não há lado pra se defender nessa batalha.

A polícia – é claro e sabido há muito tempo – é truculenta e despreparada. Age com violência desmedida, sem alvo definido. Por isso fez vítimas que não estavam ali protestando contra nada como, por exemplo, dezenas de jornalistas que cobriam os protestos. Vários foram feridos por balas de borracha, cacetetes, botinadas, bombas de gás lacrimogênio e spray de pimenta. Um fotógrafo atingido corre o risco de perder a visão de um olho.

Já os manifestantes, comandados pelo Movimento Passe Livre, perderam uma grande oportunidade de fazer história ao permitir que os protestos resultassem em vandalismo. Querer gritar, enfrentar a polícia, atirar pedras… ótimo! Mas quebrar vitrines, portas de banco, destruir bancas de jornal e lixeiras públicas e pichar ônibus, lhes tirou a credibilidade. Eles tinham a faca e o queijo na mão para conseguir sucesso, mas jogaram a oportunidade fora. Ainda não aprenderam que nenhum levante terá resultado se não tiver o apoio popular. E agindo assim, parando o trânsito, o transporte público e destruindo bens públicos, jamais terão o apoio da população.

Na verdade, há várias vertentes que se tem de analisar nessa guerra travada nas ruas de São Paulo e do Rio essa semana. O aumento da tarifa de ônibus pode ser considerado pequeno – de apenas 20 centavos. Pouco, considerando-se o tempo em que ela não é reajustada – desde janeiro de 2011, mais de dois anos. Mas excessivo se levarmos em conta a inflação desde 1994, pouco mais de 300%. Fazendo as contas, o passe não deveria custar mais que 2,59 reais. Mas como nada nesse país segue à risca a evolução inflacionária, releva-se. E vinte centavos multiplicados num mês, fazem muita diferença para quem anda de transporte público.

Pelo lado dos protestos, devemos nos perguntar porque tanta ira com isso e quase nenhuma com a corrupção vergonhosa que mata esse país? Cadê o povo nas ruas contra as condenações do julgamento do mensalação que podem cair por terra? Cadê os gritos e bandeiras levantadas contra o imenso gasto que temos visto nos estádios que vão sediar jogos da copa do mundo? Cadê as manifestações pela situação da saúde no país, contra o absurdo salários dos deputados (que aprovam os próprios aumentos) e o peso dos impostos no nosso orçamento? Contra coisas que realmente importam, ninguém tira a bunda do sofá.

Aqui no Brasil, qualquer greve, protesto, manifestação ou paralização, ferra com a vida do brasileiro. Por isso não dá resultado. Greve de trens deixa milhões de pessoas sem transporte. Vai encontrar alguém que apoie esse movimento! Na França, só para citar um exemplo, na greve de funcionários do metrô, as catracas são liberadas e os franceses circulam o dia todo sem pagar nada. Afinal quem tem de ter o prejuízo é o governo, as empresas de transporte, não a população.

Qualquer movimento precisa de controle. E não é o que estamos vendo por parte de quem está organizando tudo. É claro que a maioria não quer violência, não quer enfrentamento. Mas basta meia dúzia de baderneiros infiltrados para que o caos se instale. E com a polícia que temos – inapta, despreparada, autoritária e sedenta por violência – um pedregulho atirado resulta em bombardeio desenfreado.

Não sou contra essa manifestação da tarifa. Sou contra a forma como estão tentando fazê-la, contra o vandalismo e a baderna instalados. Mas posso até tentar entender o que está acontecendo. O problema não é a tarifa. O motivo mesmo é o saco cheio, o desânimo, a indignação do povo brasileiro contra os desmandos desses governos autoritários que temos enfrentado, e tanto faz se nas esferas municipal, estadual ou federal. É o cansaço de engolir sapo, pagar tanto imposto, aturar tanta corrupção sem ter um mínimo de retorno na nossa segurança, na nossa educação, na nossa saúde. É a onda de intolerância, de criminalidade! O povo tá farto de ser subjugado, de ser tratado como ignorante por medidas que são criadas e que só levam vantagem a quem está lá em cima, no comando. O brasileiro cansou de tanta roubalheira, da justiça que tarda, falha e não resolve, das coisas que não funcionam. Por isso eu temo que a briga pela tarifa seja apenas um estopim para algo muito maior.

E temo ainda mais que essa efervescência toda seja abrandada e esquecida com Copa que vem aí. Afinal de pão e circo o brasileiro vive há muito tempo. E o pior: aceita!