Tenho andado entristecido com a humanidade, chocado com brutalidade das relações e das reações humanas, decepcionado com o que o ser humano está se tornando. Falo isso com a alma contaminada pela tragédia que vimos, agora, num apartamento de Alphaville. O caso não tem nenhuma relação com a criminalidade, com a delinquência, com a violência urbana que estamos acostumados a ver diariamente. Desta vez – o que mais me amedronta – tem relação com a desumanidade das pessoas, com a forma odiosa com que os semelhantes tem se tratado, com a ganância, com a arrogância, com o egoísmo. Um homem de 63 anos estragou a vida de três famílias – a do marido, a da mulher e a dele próprio. Pelo que? ABSOLUTAMENTE, POR NADA! Simplesmente perdeu a compostura e a lucidez porque estava sendo alvo de reclamações. Foi desumano e egoísta. Matou em nome do seu próprio bem estar, matou a mando do próprio ego. E antes de se matar com um tiro na cabeça, ainda responsabilizou a esposa pelo estrago. “Matei e resolvi. Agora é com você”, teria dito ele.

Mas não é só isso que me revolta nas relações humanas. Há várias outras formas de assassinato que são tão cruéis quanto tirar a vida de alguém. O assassinato da gentileza, do altruísmo, a morte da solidariedade e da compaixão, a execução sumária da bondade, da lealdade e da honestidade. Um exemplo disso: cruzo o dia todo com pessoas dentro do meu próprio trabalho que, muitas vezes, são incapazes de dizer um “bom-dia”, “boa-tarde” ou “boa-noite”. Nas ruas vejo o desprezo de muitos com o “obrigado, com licença e me desculpe”. Tomo esbarrões em locais lotados e não ouço nada disso.

Ao contrário da gentileza e da educação que deveríamos estar vendo, somos testemunhas diárias da ignorância e, quase sempre, da idiotice, da imbecilidade. Basta buzinar para um motorista para alertá-lo que ele está te fechando e, pronto! Lá vem um dedo médio erguido para o alto naquele tom ameaçador. Isso quando o sujeito não para ao seu lado no semáforo e desfila todo um repertório de palavrões que faria Dercy Gonçalves revirar no túmulo. Já fui ameaçado por  homens e mulheres ao volante, taxistas, motoristas de ônibus e motoboys (esses quase que diariamente) que se sentem donos da via pública e no direito de fazerem as atrocidades que bem entenderem achando que não podem ter a atenção chamada. Bando de trogloditas que, parece, estão enfrentando uma guerra em que o mais forte sobrevive e os mais fracos são pisoteados. Prefiro ser o mais fraco, mas não me uno a essa horda de boçais que, impacientes e truculentos, tornam o cotidiano essa selva toda.

Ah, claro, não podemos esquecer também dos criminosos que ceifam vidas, subtraem sonhos e desejos, ameaçam nosso futuro em troca de um relógio bacana, de um celular moderno ou de uma bolsa, talvez falsificada. Ou dos gatunos que, sorrateiramente invadem nossos lares, nossas almas e nossa dignidade. Hoje você trabalha, você conquista mas a insegurança lhe impõe limites para usufruir daquilo que conquistou. A ineficiência da polícia e a falta de uma política pública de segurança jogaram para nós, mortais, a responsabilidade de cuidar do que temos. Ao invés de dar o recado para os bandidos, o recado vem pra gente mesmo: “Olha, não andem com celulares caros, não exibam relógios valiosos, não dirijam carros luxuosos, blá, blá, blá!”

Mas falando a verdade, são dos bandidos que a gente deve menos ter medo. Pois sabemos o que querem, como agem, mais ou menos quando agem e porque são assim. E até podemos identificá-los por sua maneira sempre suspeita. Medo mesmo devemos ter dos vizinhos que não conhecemos, do motorista de taxi que está à sua frente, do motoboy que vem pelo seu retrovisor, da pessoa com quem você esbarra na rua. Desses sim não sabemos o que esperar, que reação terão a uma afronta qualquer. Por mais banal que seja, a pressão do estresse, dos problemas rotineiros, da falta de dinheiro ou até mesmo um desequilíbrio emocional patológico serão gatilhos para transformar essas pessoas em verdadeiros monstros que matam sem motivo aparente ou justificativa. Os “dias de fúria” estão se tornando comuns e é isso que devemos temer. E o pior: contra essa intolerância não há segurança nem polícia que a impeça. Ela nos ronda, convive com a gente e pode, a qualquer momento, bater à sua porta. Pode estar até mesmo dentro da sua casa.

O que fazer? Na verdade não sei. Mas só vejo solução nas nossas atitudes, na nossa conduta. Pois da mesma forma que elas nos conduzem ao céu, também podem nos levar ao inferno.