Acordo meio zonzo, sem me lembrar direito onde estou. Aos poucos a visão vai ficando desembaçada e começo a recobrar a consciência. Olho para os lados tentando localizar meu irmão quando chega uma enfermeira e me avisa que ele sairá da sala de cirurgia em breve. Entramos na sala cirúrgica por volta das sete da manhã. Quando abri os olhos era nove e meia. Eu não sentia praticamente nenhuma dor, apesar do corte de 22 centímetros no lado esquerdo do abdome e ao começar a lembrar de todas as etapas deste processo maravilhoso, iniciado em novembro do ano passado, não pude conter as lágrimas de felicidade.

 

Doe uma vida a quem precisa

A narrativa acima parece captada do capítulo de um livro, um romance qualquer. E até estará nos trechos finais da auto-biografia que estou escrevendo pois aconteceu de verdade. Enquanto vocês leem este artigo, ainda me recupero da única e mais importante cirurgia da minha vida. Não tenho e nem tive qualquer problema de saúde, pelo contrário – sou forte, resistente e levo uma vida completamente saudável com exercícios e alimentação adequada. E foi exatamente essa condição que está me permitindo passar pelo que estou passando. Nessa segunda-feira, dia 17 de setembro (uma data que ficará marcada na memória para o resto da minha vida) doei uma parte de mim ao meu irmão. Ele agora goza da benção de ter um rim novo funcionando perfeitamente. E eu da imensa felicidade de ter recebido essa missão das mãos de Deus.

O drama do meu irmão começou mais ou menos 9 anos atrás quando ele descobriu que herdou do nosso pai os rins policísticos. Conseguiu viver muito bem até maio deste ano quando os rins começaram a dar sinais de falência. No momento em que ele me disse que teria de entrar na fila dos transplantes, de imediato me ofereci para ser seu doador, mesmo antes de conhecer quais seriam as consequências e restrições que eu teria ao viver com um rim só. Mas primeiro precisávamos investigar se eu tinha algum problema de saúde que impedisse o transplante e se existia compatibilidade. E graças a Deus somos quase idênticos nessa questão. A partir daí tomei isso como a coisa mais importante a realizar na minha vida e ao tomar a decisão eu não quis nem pensar em riscos, sequelas ou qualquer outro fator que pudesse mudar pra pior a minha vida. Me preparei, fiz dieta, exercícios, perdi 14 quilos, tudo para estar fisicamente preparado para enfrentar o processo. Fiquei imbuído da tanta fé e força que nada mais me importava. Sempre tive a certeza de que tudo, absolutamente tudo, daria certo.

E deu! A cirurgia foi um sucesso e a recuperação de ambos também está sendo. Eu volto para casa mais cedo – foram apenas 3 dias no hospital. Meu irmão fica pelo menos uns 10 dias mas já vi em seus olhos por trás daquela máscara um brilho de vida que jamais tinha visto antes. Choramos juntos, abraçados, durante a minha saída do hospital.

Desde sempre eu me anunciei como doador de órgãos. Minha família toda já sabia e estaria pronta para o momento em que essa hora chegasse. Acho um dos atos mais nobres que alguém pode ter, mas nunca imaginei que faria isso em vida. E posso lhes dizer uma coisa: agradeço a Deus todos os dias por essa missão divina. Fiz isso pelo meu irmão por inúmeros motivos: ele é jovem (43 anos), tem dois filhos pequenos (Sofia de 5 e Henrique de 3 anos), sempre foi uma pessoa íntegra, digna e merecedora de qualquer benção. Além disso eu não queria que ele sofresse o que meu pai sofreu por 4 anos, até falecer pelo agravamento do problema aos 46 anos de idade. Naquela época – os anos 80 – vivi com meu pai cada momento das suas dores, do seu drama, da sua tristeza e não poderia permitir que meu irmão passasse pela mesma situação.

Quanto à minha recuperação, duas semanas serão suficientes para voltar ao trabalho e um mês para retomar os exercícios físicos, academia e pedaladas. Não terei restrições alimentares e continuarei levando a mesma vida de antes mesmo com um rim só. Já para o meu irmão, nos primeiros meses as restrições serão maiores sem abusos na alimentação, bebidas e exercícios. Ele só precisará tomar um medicamento para o resto da vida para evitar rejeição – o que é comum em qualquer transplante, mesmo com uma compatibilidade tão grande quanto à nossa. Mas fora isso, terá a mesma vitalidade que a minha. E é isso que me deixa feliz e realizado.

As pessoas que não conhecem os procedimentos para se tornar um doador de órgãos devem buscar informações, conhecer as etapas, saber como é a cirurgia e a recuperação do doador e do transplantado. Deve deixar o preconceito e as questões religiosas de lado para conhecer o prazer de poder doar VIDA a alguém. Fiz isso pelo meu irmão, mas faria também por um primo, um parente distante ou até mesmo por um amigo, mesmo que o processo para a doação em vida de não parentes seja um pouco mais complicada e exija uma autorização judicial. O que importa é saber que a maioria de nós temos a possibilidade de permitir que muita gente tenha uma vida nova.

Doar um órgão é doar uma vida. E posso, agora por experiência própria, dividir essa sensação maravilhosa com vocês.

Esse é o cara (na direita) a quem dedico todo o meu amor fraterno e admiração.