Alguém mais aceita um "cafezinho" aí?

 

Desde abril estamos acompanhando, direto de Brasília, mais uma CPI que prometia revelações. Mas apenas revelou, até agora, que deve mesmo terminar como muitas outras: numa pizzaria. Eu pude ver tudo de perto por um mês e não me surpreende que as manobras para desestabilizar o trabalho da comissão sejam cada vez mais efetivas. E o pior, arquitetada por gente de lá de dentro mesmo, tipo uma implosão programada.

Primeiro foi visível a guerra de forças entre os integrantes, deputados e senadores, sobre o sigilo ou não dos depoimentos. Muitos preferiam manter tudo fechado, talvez tentando impedir que histórias escabrosas viessem à tona. Não adiantou e o bom senso prevaleceu com alguns parlamentares soltando o verbo.

O segundo embate entre eles foi sobre a convocação ou não para depoimento de pessoas essenciais às investigações. Quando surgiu os nomes dos governadores do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, e de Goiás, Marconi Perillo, foi um Deus-nos-acuda! A bancada petista contra a dos tucanos. Todos empenhados em não querer que seus governadores viessem. Talvez, não por medo do que eles pudessem revelar (ou exatamente por isso mesmo) mas mais por não quererem expô-los numa CPI tão conflitante.

Agora vemos outra guerrinha interna por causa da não-convocação, até o momento, de Fernando Cavendish, dono da empresa que era o “dinheiroduto” de Cachoeira, a Delta. Empresa essa que recebeu bilhões de reais por obras do PAC, principalmente do DNIT, do senhor Pagot. Aliás, este é outro que mesmo disposto a ir à CPI ainda não foi convocado. “Estou querendo abrir o bico, pelo amor de Deus!” brada ele. Mas deputados e senadores não querem saber o que ele tem à dizer. Ou não querem que ele diga o que tem a dizer. Sem contar os convocados que foram lá e debocharam da comissão, autorizados a não falar pela “liminar do silêncio” do STF. E, ainda mais recente, o TRF deve julgar ilícitas as escutas que levaram à prisão dos envolvidos, jogando tudo por “cachoeira” abaixo.

De uma forma ou de outra, se percebe que o muito que ainda há para ser dito na CPI gera motivo, de sobra, para muita gente ali dentro fazer corpo mole, se fazer de desentendida e colocar amenidades na frente das prioridades que precisam ser adotadas. Fala-se até num “acordinho” de senadores que estariam pretendendo faltar ao plenário na votação que definirá o destino de Demóstenes Torres, livrando-o assim da cassação, já que a ausência significa apoio.

Deputados e senadores da CPI defendendo governadores. Deputados e senadores da CPI almoçando com Cavendish. Deputados e senadores da CPI protegendo colegas indecorosos. Quantos ali podem ter lucrado com os negócios de Cachoeira além de Demóstenes? Quantos ali não receberam doação de campanha de empresas comandadas pelo contraventor? Quantos ali não tiveram seus nomes citados nas investigações e estão sendo protegidos pelas “vossas-excelências” amigas? Essa semana a presidenta Dilma externou uma pergunta que eu me vinha me fazendo a tempos: porque uma CPI se já estava tudo comprovado, muita gente presa e um inquérito em andamento com provas cabais da bandalheira? Pra investigar o que mais? Eu respondo: em ano eleitoral, quer melhor palanque do que uma CPI cercada pela mídia?

O que parece é que colocaram as raposas para tomar conta do galinheiro. E com um recesso de doze dias a CPI deve esfriar. Depois vem a votação do Mensalão que vai desviar as atenções. Aí chegam as eleições que vão arrastar parlamentares para seus currais eleitorais. E assim a CPI caminha para o forno a lenha mais próximo só para ver o queijo derreter, o majericão esturricar e a massa dourar. E essa pizza, como todas as outras, será indigesta, difícil de engolir. E a vida seguirá calmamente.

Os presos já estão ganhando a liberdade. Só falta o Ali Babá, Cachoeira. E os políticos… ah, esses políticos, continuarão por aí, no congresso da vida assando pizzas, dourando pílulas e tirando pêlo de ovo. Ou seja, nada diferente do que eles tem experiência de sobra pra fazer.

Durma com um barulho desses!