Doar um órgão é doar uma vida

Recentemente fiz algumas matérias sobre doação de órgãos e esse tema me toca profundamente por viver uma situação pessoal relacionada a isso. Sempre me anunciei doador por entender que o que não nos serve mais, pode trazer uma vida nova a outras pessoas. Mas jamais imaginei que faria isso em vida, como no caso. Há quatro meses me preparo para este processo para ajudar a um irmão. E confesso nunca ter tido qualquer receio ou qualquer resistência. Pelo contrário, poder doar algo que não me fará falta, é o maior prêmio que já recebi em toda a minha vida. É ter sido escolhido por Deus para realizar a maior e mais importante das minhas missões na vida.

Ao me informar sobre os procedimentos e consequências, inclusive para a produção de matérias, fiquei um pouco estarrecido com a resistência de algumas famílias em aceitar que os órgãos de parentes que morreram fossem doados. As estatísticas mostram que, em média, quase a metade das famílias brasileiras entrevistadas numa pesquisa da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos se negaram a isso. Em parte por preconceito, em parte por falta de informações. Na verdade, por preconceito por falta de informações. Mas há uma outra parcela de culpa: a falta de preparo de alguns hospitais e profissionais da área de saúde em saber como lidar com as famílias que passam por essa situação. Principalmente por elas terem de tomar uma decisão importante num momento de perda e de dor. O lado positivo disso é que, segundo também as estatísticas, a maioria das famílias que foram bem instruídas sobre a doação, concordou em fazê-la.

Doar um órgão é um ato de amor. Talvez o maior deles. E aceitei essa missão mesmo antes de ter pesquisado sobre as consequências e as restrições que um doador em vida pode ter. E sem a intenção de me tornar um mártir qualquer ou ser coroado por isso. Concordei pura e simplesmente, sem pestanejar, porque acompanhei o sofrimento do meu pai, durante toda a minha adolescência. Ele tinha uma doença nos rins e as condições da época não lhe permitiram conseguir um transplante. Isso lhe tirou a vida aos 46 anos de idade. Mesmo que eu tivesse restrições com a saúde pro resto da minha vida – o que não vai acontecer – eu não quis que meu irmão sofresse o mesmo.

Se nós jornalistas, ora tratados como formadores de opinião, ora também como babacas e imbecis, pudermos servir de exemplo, eu digo: seja um doador de órgãos! Anuncie isso pra sua família e seus amigos e converse com as pessoas menos instruídas mostrando-lhes a importância do ato. Só assim você vai saber imaginar que o prazer de quem doa é muito maior do que o de quem recebe. E com isso vai ter real entendimento do significado do amor e da vida.