Ah, o Carnaval! Que harmonia, que tranquilidade!

Meu Carnaval está sendo dos mais tranquilos. Assim como meu Natal e Réveillon, a folia acontece em meio a trocas de fraldas e mamadas. O samba-enredo foi substituído pelo chorinho (do bebê), e o ronco da cuíca pelo meu, cansado das noites mal dormidas. Na verdade, muito bem-dormidas, porque, com esse anjo que temos em casa, é botar a cabeça no travesseiro e dormir de felicidade, mesmo que pouco.

Mas confesso que nunca gostei muito de Carnaval. Aliás, gostei até meus vinte e poucos anos quando ainda zarpava com a turma para alguma praia ou passava as noites pulando feito pulga nos salões do Clube Renascença, em Cajuru, cidade onde cresci no interior de São Paulo. E naquela época, quase 30 anos atrás, era tudo diferente. O axé ainda não existia pelo Sudeste do país, graças a Deus, e o que reinava por aqui eram as marchinhas, os sambas de raiz e alguns sambas-enredos dos quais até hoje cantarolamos seus refrões. Bem diferente dos atuais que já esqueceremos no próximo Carnaval.

O Carnaval da minha época não tinha drogas. Bom, até tinha, mas não passava de cigarrinhos de maconha que muitos usavam (eu nunca curti, sério) nos corredores atrás do clube. Mas na minha turma não tinha isso. Outras drogas pesadas como cocaína, por exemplo, combustível da folia de hoje junto com o crack, até poderiam existir, mas fazia parte de uma realidade muito distante da nossa. Acho que eu nem sabia o que era. Crack então, nem existia. Agora, uma coisa que a gente curtia muito era lança-perfume. Que, perto de tudo isso que existe hoje, era uma inocente brincadeira, apesar de proibido. Mas o nosso era uma coisa ainda mais inocente: a gente usava um desodorante muito vagabundo na época chamado Rastro. Era a nossa viagem etérea (risos)!

Hoje não vejo o Carnaval como uma coisa saudável, por mais que muitos insistam nessa mentira. Tanto que vem perdendo audiência até na televisão. Basta ver os números do Ibope do último domingo – a transmissão das escolas de samba do Rio pela Globo perdeu feio para o Domingo Espetacular. No horário de confronto, entre as 21h e as 23h32, a vitória foi por 14,5 pontos a 12,7. Mas também não quero ser careta a ponto de discriminar a folia do rei Momo. Apenas acho que a maioria não pensa mais na festa como uma forma de lazer e de diversão. Acredito que o objetivo é muito mais sombrio. O consumo de drogas e álcool em excesso são o ponto forte hoje. O sexo casual e irresponsável também. Basta ver as reportagens sobre isso que, geralmente, são veiculadas nessa época: “Número de mortes nas estradas aumenta no carnaval”, “Salvador tem a folia mais violenta da década”, “Cresce o volume de assaltos”, “Brigas e violência marcam a festa no nordeste do país”, “Casos de HIV crescem”, etc.

Em resumo, carnaval virou sinônimo de bagunça, criminalidade e violência. Eu não consigo descobrir onde, em qual folia, seja na rua ou em salão, não se tem notícias de pancadaria, quebradeira, bebedeira e afins. Em que lugar a polícia não precisou agir de forma enérgica e até violenta para conter os mais eufóricos? Em que estrada não houve um aumento nos índices de acidentes? Respostas difíceis.

Tá bom, agora estou sendo careta por não gostar de Carnaval e sei que muitos de vocês vão escrever comentários me xingando. Mas tá, careta ou não, falei alguma besteira?

Republiquei um texto do Danilo Gentili no meu Facebook que assinei embaixo. Diz o seguinte:

“Queria ser presidente por um dia. Faria uma lei que anulasse o carnaval em prol da nação. Argumentos lógicos não me faltam: diminuição de acidentes, menor índice de HIV positivo, melhorar a imagem do país no exterior, cortar semana ociosa para aumentarmos a nossa renda, valorizar a imagem da mulher brasileira, investir os dois bilhões gastos por ano no carnaval em educação, diminuir o consumo de drogas nesse período. Acho que não teria o apoio popular pra isso. Já tivemos presidentes que afundaaram a educação, a habitação, a reforma agrária, a inflação, a renda familiar, os empregos e até mesmo presidente que roubou nossa poupança. Ninguém reclamou. Porém, se eu acabasse com o carnaval, certamente me matariam. Mesmo sabendo o risco que corro, aceitaria essa missão suicida, afinal é melhor morrer no país do carnaval do que viver no carnaval desse país.”

Talvez Gentili tenha usado mais de humor do que de seriedade no comentário, mas concordo com ele em 90% do que disse. Só acho que não precisamos acabar com o Carnaval e sim trazer de volta aquele romantismo de antigamente que fazia da festa uma das mais bonitas do mundo. Duas coisas sempre fizeram a imagem do Brasil brilhar lá fora: o Carnaval e o futebol. Hoje já não é bem assim. As escolas de samba não são nada mais que tanques para lavagem de dinheiro da corrupção, da contravenção e das drogas. A escolha da escola campeã mais parece uma guerra pelo poder na América Central e as micaretas pelo país afora, tirando o charme das Ivetes e Cláudias, são o que fazem as cidades onde acontecem ficar sem verba para educação, saúde e segurança. Os desfiles se tornaram nada mais que ações de publicidade e os temas variam de acordo com a contribuição dada.

Seria muito bom que a folia do Carnaval ficasse apenas nestes quatro dias. Mas, infelizmente, é uma folia que dura o ano todo. Folia com nosso dinheiro, com nossos costumes, com nossos valores. E as consequências vão longe num samba-enredo desafinado, que atravessa a moral e causa uma imagem cada vez menos gloriosa lá fora. Por isso o termo virou sinônimo de coisa negativa: afinal, é ou não é verdade que muita coisa neste país está o maior Carnaval?

Bom resto de folia a todos!