O amor pode não ser o mesmo, mas os exemplos sim

Meu pai nunca foi uma pessoa plenamente carinhosa. Pelo menos até onde eu o conheci. Não era de pegar no colo, de fazer afagos, de brincar com a gente. Somos 3 irmãos e do período em que comecei a entender as coisas até a sua morte, 16 anos depois de eu nascer, nunca vi meu pai trocar carinhos com qualquer um dos filhos. Mas na época eu nem ligava pra isso. Talvez eu achasse melação demais esse dengo de pai. Anos mais tarde é que fui entender a importância e sentir falta disso.

Ao mesmo tempo em que não demonstrava muito seu afeto, meu pai era uma pessoa extremamente generosa com a família e com os amigos. Se alguém elogiava seu relógio, ele tirava do pulso imediatamente e presenteava a pessoa. Também nunca mediu esforços para ajudar alguém com dinheiro. Comprovei isso depois da sua morte quando minha mãe achou entre os documentos dele um calhamaço de cheques pré-datados que nunca foram descontados. Eram as garantias dos empréstimos que nunca foram cobrados.

Em casa, sempre atendeu nossos pedidos de brinquedos e conforto e, muitas vezes, nos surpreendeu com coisas que ele dizia que jamais nos daria. Mas era severo. Seu olhar doía mais que uma palmada. E ele nunca encostou um dedo em qualquer um dos três. Bastava aquela cara de repreensão quando fazíamos algo errado, e pronto! Tudo entrava nos eixos.

O Turcão, como muitos amigos o chamavam (e hoje uma amiga querida me chama assim), me deixou vários bons exemplos de vida. Quando moleque, ele empurrava uma carroça pelas ruas de Santo Antônio da Alegria, cidade em que nasceu no interior de São Paulo, e catava papelão para vender. Estudou, se formou em técnico contabilista e virou gerente de banco numa época em que era uma profissão de mais status. Ganhou dinheiro, construiu um belo patrimônio em São Paulo, mas de repente largou tudo e fomos para o interior, onde ele comprou um supermercado e uma loja de materiais de construção.

Sempre que eu lhe pedia dinheiro para as coxinhas de fim de semana na lanchonete da praça, ele nunca negou, mas me colocava para trabalhar aos sábados na loja, para que eu fizesse jus à mesada. Eu odiava aquilo, afinal, meus amigos rumavam para o clube e eu estava ali vendendo pregos, parafusos e sacos de cimento. Muitas vezes eu dizia “tomara que isso aqui pegue fogo”. Isso sem entender direito que aquilo tudo nos dava o conforto que tínhamos e sem saber que um dia nos faria tanta falta.

Pouco tempo depois, meu pai morreu sem deixar absolutamente nada do que tinha para a família. Depois de quatro anos acamado por causa de doenças, as despesas e as dívidas consumiram tudo. E de uma vida confortável, passamos a viver, muitas vezes, de favor na casa dos outros.

Mas o maior patrimônio que seu Abdala nos deixou mesmo foram mesmo as lições de vida. Ele e dona Iracy, minha mãe, que se foi três anos depois dele, quando eu mal tinha completado a maioridade. Seus ensinamentos foram meu bastião de aprendizado. Aprendi com eles a dar valor ao dinheiro e às pessoas. Aprendi também a lei da ação e reação que uso até hoje: para cada ação que você empreende, recebe uma reação em proporcional intensidade e tamanho, seja pelo bem ou pelo mal. Se você dá um tapa, recebe-o de volta. Se você dá carinho, é com afeto que será tratado. É simples e básico. Apesar de faltar o carinho do meu pai, o da minha mãe preencheu essa lacuna. Na prática então, éramos felizes, apesar de tudo.

Por não ter tido a oportunidade de conhecer melhor meu pai, e que ele me conhecesse melhor, é que sei como serei com a minha filha Mariah. Me sinto no dever e no desejo de resgatar com ela, o que não pude ter com meu pai. Se Deus permitir, quero conhecê-la como ele não pode me conhecer em vida, compartilhar com ela todas as minhas conquistas e vê-la compartilhar comigo as suas. Pretendo sempre estar presente em sua vida como meus pais não puderam estar comigo e com meus irmãos. Enfim tentarei viver com ela, intensamente, o que gostaria de ter vivido com meus pais.

O assunto até pode parecer repetitivo em relação ao último post em que falei de amor incondicional. Mas eu quis, agora, inverter. Falar de amor de filhos para com os pais, que muitas vezes não é tão intenso como o inverso. E isso eu não pude ter na sua verdadeira essência. Eles se foram um pouco antes da fase em que os filhos geralmente deixam de ser apenas filhos para se tornarem amigos dos pais. E assim tornarmo-nos confidentes. Nós os amávamos, ou pelo menos achávamos que os amávamos. Mas não conseguimos conhecer, na época, esse real sentimento.

Hoje quero ser para minha filha mais do que meus pais foram para mim e tentarei aceitar que o amor dela por mim talvez não seja o mesmo que lhe dedicarei. Quero, no mínimo, repassar a ela os exemplos que meus pais me deixaram e que sempre me ajudaram a entender e a respeitar as relações humanas e seus sentimentos. Mesmo que eu ainda tenha muito de aprender com eles.