Luiza e Teló: atuais ícones da cultura brasileira

Tenho cada vez mais convicção de que o brasileiro, pelo menos em sua maioria, tem adoração por coisas fúteis, superficiais e desinteressantes. Enfim, por aquilo que não acrescenta nada em nossas vidas, mas estão ali, sempre presentes, como se fossem um karma.

Percebo isso, principalmente, nas redes sociais como Twitter e Facebook. Outro dia até fiz uma pequena pesquisa na minha time-line onde são exibidas as postagens de milhares de pessoas – muitas que conheço, outras que não. E o resultado foi curioso. De 100 postagens que li, vi o seguinte:

– 3 repliques de notícias do dia;
– 5 questões sobre política/corrupção/saúde/educação/falsa grávida;
– 32 postagens de coisas estritamente pessoais (fiz isso, fiz aquilo, vou aqui, fui ali);
– e outras 60 (SESSENTA!!) piadinhas/fotos engraçadas/BBB/Luiza do Canadá e outras baboseiras.

Mas no Facebook até que a gente perdoa, afinal aquilo ali não é uma coisa pra ser levado muito a ferro e fogo. É mais pra descontrair, rir e fazer rir, desabafar. Enfim, é um diário pessoal onde cada um exprime o sentimento que bem entender.

Mas acho interessante mesmo é que quando posto algum assunto sério, algum questionamento sobre comportamento, uma reportagem de impacto, uma questão política, uma nova lei, um caso de corrupção, etc…. recebo lá, vai, 5 comentários! Agora se eu posto uma foto engraçada, uma piadinha sobre a Luiza que está (ou estava) no Canadá ou faço graça com o refrão mais repetido do Brasil (Ai se eu te pego!), pronto! Lá vem uma enxurrada de comentários.

E não vejo isso apenas na minha time-line não. Das dos meus amigos também. É um festival de besteiras que as vezes me assusta. Aí me pergunto: será que as pessoas não querem mesmo falar de coisas sérias por causa de tanta atrocidade que vemos na TV e nos jornais? Ou não estamos nem aí pra isso e o jeito mesmo é brincar?

E vejo isso acontecer também fora das redes sociais. Mulheres frutas fazem sucesso na TV e viram celebridade. Um funk qualquer cuja letra não tem o menor sentido (e elas nunca tem mesmo) mas que tem uma batida irritante, estoura nas paradas de sucesso e ganha até disco de ouro. Reality shows inúteis que mostram um bando de gente sem noção, sem ter o que fazer e sem nenhum conteúdo se proliferam nas tvs e tomam espaço de coisa muito melhor que poderia ser exibida. É uma impressão incômoda de que o brasileiro só dá valor ao que não presta!

Calma, calma… não quero fazer aqui igual meu colega de profissão Carlos Nascimento, que disse que já fomos mais inteligentes. Não é pra tanto também. Só quero, com a ajuda de vocês, tentar entender um pouco essa obsessão.

Novela tem mais audiência que documentário. Programa cultural é uma coisa que só se vê nas madrugadas do fim de semana quando quase ninguém está acordado. E se está, não está na frente da televisão. Axé, funk e sertanejo fazem mais sucesso que MPB e a garota do momento não é que venceu um câncer e sim a que estava (já voltou?) no Canadá. E, convenhamos, coitada da Luiza que até agora não esta entendendo direito o que aconteceu com ela!

No Facebook vejo compartilharem charges engraçadas e fotos bizarras mas não vejo isso acontecer com a palavra de Deus, por exemplo, ou mensagens de otimismo e esperança. Milhões de pessoas ligam para votar no BBB (que fatura milhões de reais a cada paredão) mas não vejo ninguém doando um centavo sequer para qualquer instituição de caridade ou para qualquer causa nobre.

Diante disso, temo pelo futuro da minha filha, que tem hoje pouco mais de um mês de vida, e de outras crianças que estão crescendo num mundo com valores tão baixos. Além disso tudo que vemos, ainda enfrentamos uma onda de intolerância que assusta – é gente matando gente por causa de uma discussão de trânsito, gente que fura fila por causa da pressa, estaciona em vaga de deficiente, não dá lugar pra idoso nos ônibus, gente incapaz de ser gentil.

Privar nossos filhos desse mundo é praticamente impossível, só trancafiando-os dentro de casa sem internet e televisão. Mas o esforço que fazemos hoje para torná-los pessoas melhores no futuro é imensamente maior do que fizeram conosco os nossos pais. E isso torna uma frase que se espalhou por ai, ainda mais verdadeira: “Muito se pensa em deixar um mundo melhor para os nossos filhos. Mas alguém sabe como deixar filhos melhores para o nosso mundo?”.

Com tanta baboseira por ai, não vai ser fácil! #Ficaadica!