Certa vez, ouvi uma história que retrata bem o quanto as pessoas podem colocar sua ganância à mostra, com garras afiadas de egoísmo.

Vejam só: Romualdo (vamos chamá-lo assim), dono de um escritório de advocacia, comprou dois bilhetes de um bingo beneficente para ajudar uma instituição de caridade. Ato nobre. Os bilhetes davam direito a concorrer ao sorteio de um carro popular. Sem tempo para ir ao tal bingo – comprou mesmo pela insistência da tia que lhe vendeu os bilhetes – os deu para sua secretária de anos, que aqui chamaremos de Valdete. Ela, mulher de meia idade, de família simples, ao chegar em casa e também sem tempo para ir ao bingo, antes de jogá-los na gaveta ofereceu os convites para a filha ir com o namorado. Ambos que não tinham nada pra fazer (a não ser ficar se esfregando no sofá da sala) acharam programa de velho, mas resolveram ir.

O almoço (também incluía um almoço) era daqueles que servem churrasco com farofa, arroz e garfinho de plástico, num pratinho de papelão encharcado com o molho da salada de repolho picado com tomate (tradicional nesse tipo de evento). Trezentas e cinquenta e duas pessoas depois, o casal conseguiu se servir, empurrando aquela gororoba pra baixo com guaraná Dolly sem gelo. Resistiram a tudo porque havia a chance de ganharem o carro no sorteio.

Bom, terminado o almoço, cartelas nas mãos, começa o bingo. O locutor, mais parecido com Matusalém depois do Alzheimer, gritava as pedras numa cadência tartarugal, bem diferente daquela correria dos extintos bingos eletrônicos onde não dá pra respirar, ouvir a pedra e marcar na cartela ao mesmo tempo. E ainda fazia brincadeiras “novas” como “Dois patinhos na lagoa… 22, a idade de Cristo… 33, dois velhinhos safados fazendo sexo… 69” (ops!).

De repente um jovem grita BINGO!, ainda cuspindo lascas de repolho que ficaram presas nos dentes. Era ele, o namorado da filha da Vadete! O casal não acreditava. Tinha ganho o carro no valor de uns 25 mil reais. O moleque que mal tinha feito 18 anos, saiu correndo por entre as mesas derrubando as velhinhas que ainda conferiam as pedras. Voltaram os dois de carro zero pra casa.

Ao chegar e mostrar o prêmio, Dona Valdete pulou de alegria: “Graças a Deus nunca mais vou precisar ir trabalhar de ônibus”, dizia. E o garoto insolente: “Péra lá, mas quem ganhou o carro fui eu!”. “Mas fui eu quem te deu o bilhete, pirralho!”, bradou ela.

Bom, tava armado o começo de uma confusão danada. A mãe do garoto entrou na briga pela posse do carro que o namorado da filha tinha ganho. A secretária mandou ela largar o “mau caráter”, que a partir dali passou a não prestar mais (justo ele que sempre foi coberto de mimos e guloseimas caseiras pela sogrinha querida).

Ao consultar o patrão, advogado, sobre o que fazer e quem tinha direito sobre o carro, ele falou “Pêra lá, mas fui quem pagou pelos convites” e requereu o carro pra si, ameaçando a secretária histórica de demissão. Confusão danada que foi parar até na delegacia. O pior é que o delegado queria saber se o bingo tinha autorização pra ser realizado (parece que não).

Bom, agora vocês já sabem como acabar com um namoro, partir o coração da sogra, conseguir uma demissão e ainda provocar uma ameaça de prisão dos velhinhos que organizaram o bingo. Tudo isso por apenas R$ 20,00 – preço dos dois convites e da ganância que provocou essa confusão toda.

Moral da história: coloque o traseiro de um cordeiro na frente de um leão e saberás se ele é vegetariano!