Foto: Fernando Donasci/Reuters

A cracolândia é um problema que se transformou numa espécie de “cartão de visitas negativo” de São Paulo desde os anos 90. E nunca se conseguiu resolver aquilo. Nem mesmo a operação da PM realizada recentemente teve resultado positivo. Ainda é possível ver consumidores de crack usando a droga em plena luz do dia nas imediações, sob as barbas da polícia que montou um posto ali. Agora, a ROTA, considerada o grupo de elite da polícia paulistana, entrou na operação. Pra que? Para tirar os usuários dali e espalhá-los ainda mais pela cidade? Foi o que a operação fez até agora.

Duramente criticada pelo Ministério Público de São Paulo, a ação na cracrolândia mais parece coisa politiqueira do que assistencial. Aos olhos de muitos, teria sido apenas um respaldo aos interesses imobiliários na região. E muitos se perguntam porque aquilo existe nesse tempo todo e nunca se conseguiu fazer nada? Eu me arrisco a responder: teria sido a valorização da região com o projeto “Nova Luz” que despertou interesses comerciais nos terrenos e prédios abandonados dali?

Agora, como num surto de desespero, o Governo do PSDB, já crucificado por denúncias que arrepiariam até Ali Babá, tenta mostrar à população paulistana que resolveu a questão. Mas só tenta! Acredita quem não tem juízo e discernimento.

Os números da ação na cacrolândia nos fazem rir:
– 23 pessoas presas (muitas soltas depois porque eram apenas usuários);
– 28 condenados pela justiça recapturados.

E, PASMEM, foram apreendidos apenas 440 gramas de pedras. MENOS DE MEIO QUILO DA DROGA! Ah, me esqueci de dizer que foram feitas quase 3 mil “abordagens”. Como será que foi isso? “Oi tudo bem, sou da polícia. O sr tem pedras de crack aí? Não? Ah, tudo bem. Desculpe por abordá-lo!”.

E o que aconteceu com a maioria dos farrapos humanos que perambulavam por ali? Foi levada para alguma clínica de tratamento? Eles foram atendidos pelos serviços públicos sociais? Foram encaminhados para instituições de desintoxicação? Nada disso! Continuam fazendo a mesma coisa – fumando crack – em outras regiões da cidade. Não se espante, você que mora aí em Santa Cecília, Perdizes ou Barra funda, se ver um desses usuários na porta do seu prédio. Foi isso que a operação da polícia fez, apenas esparramou a cracolândia pela cidade.

A atitude também joga por terra outra situação: o trabalho que, mesmo mal e porcamente, vinha sendo feito ali por agentes sociais. Havia, no mínimo, uma tentativa de recuperar alguns viciados, mesmo que insignificante. Agora, nem essa possibilidade existe mais. Além disso, esse esparramo todo, dificultou ainda mais qualquer trabalho de inteligência policial para detectar e prender os traficantes responsáveis por abastecer a região.

A cracolândia é um caso de polícia sim, mas acima disso, uma questão de saúde pública e assistência social. A maioria dos que estão ali, mais do que cadeia, precisam de tratamento, de encaminhamento, de apoio. Já ouvi histórias de pessoas que perderam para o crack, seus pais, irmãos, filhos, parentes. Eram gente de bem que, de repente, perdeu o rumo. Muitos ali são criminosos, claro. Mas não podemos generalizar.

Às autoridades envolvidas faltam vergonha na cara, caráter e boa vontade para que a cracolândia deixe realmente de ser esse cartão de visitas do mal de uma das maiores capitais do mundo. Espalhar usuários pela cidade não vai resolver a questão. Confiná-los num só lugar, como o que foi feito durante duas décadas, também não.